Reinado Social de N. S. Jesus Cristo – A Doutrina

//Reinado Social de N. S. Jesus Cristo – A Doutrina

Reinado Social de N. S. Jesus Cristo – A Doutrina

Jornada pelo Reinado Social de Jesus Cristo

“A doutrina de Cristo Rei: da Cristandade Medieval até o Estado Moderno”

Primeira lição: ‘Reinado Social de N. S. Jesus Cristo – A Doutrina’.

Modena, 14/10/2006

 

[Em outubro de cada ano, desde 2006, o Instituto Mater Boni Consilii (IMBC) realiza em Modena, cidade na região norte da Itália, uma Conferência sobre O Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Normalmente realizada no Salão do Restaurante Vinicio, onde o conferencista/Palestrante é o Sacerdote Don Francesco Ricossa.
Don Ricossa é um dos quatro padres Italianos que, em 1985, deixaram a Fraternidade Sacerdotal São Pio X de Mons. Marcel Lefebvre para fundar o IMBC.
O instituto, no que diz respeito a presente crise da Igreja, segue a tese do teólogo dominicano Padre M.-L. Guérard des Lauriers. Em linhas gerais a tese afirma que Paulo VI e seus sucessores, ainda que tenham sido eleitos papas, não tem autoridade Pontifícia. Seriam papas materialmente, mas não formalmente, visto que não atuam o bem (objetivo) da Igreja e ensinam erros e heresias. Assim, não podem, de modo algum, enquanto não se retratem de seus erros, receber de Cristo a autoridade para governar, ensinar e santificar a Igreja.
O Instituto está presente na Itália, onde tem em sua casa sede um seminário, Bélgica, França e Argentina.
Apresentamos a versão texto da primeira lição da conferência de 2006.]

 

I – INTRODUÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS TEMAS.

 

Sinceramente se eu estivesse no vosso lugar não teria vindo aqui para ficar me ouvindo o dia inteiro. Porém, consola-me o fato de que vejo ali no fundo um magnífico buffet, ouvi dizer que aqui no Vinicio [Restaurante] a comida é boa, portanto, fico feliz porque se o conferencista se sair mal, pelo menos a jornada não será totalmente desperdiçada.

É lícito dormir ou cochilar, como eu mesmo faço quando escuto os outros, contanto que se faça com discrição e evitando atrapalhar o próximo que, talvez, possa ter ficado acordado.

Embora eu esteja aqui brincando, o tema do qual devo falar é extremamente sério.

Devo desenvolver três conferências, três lições. A primeira delas, que desenvolvo agora, antes do almoço, portanto, talvez ainda com todos acordados, trata do ponto teórico-doutrinal: O Reinado Social de Cristo Rei. Naturalmente, se é uma Reinado é de Cristo Rei.

Após o almoço, (portanto num estado de meia sonolência graças ao Lambrusco e ao Gnocco Fritto) teremos outras duas lições que demonstram como a realeza de Cristo triunfou e como foi combatida no decurso da história.

De modo que trataremos não só do aspecto puramente doutrinal, mas também do histórico e prático-concreto. Espero que essa jornada não se torne uma enfadonha lição de história –  que é a matéria que mais me apaixona. No entanto, é impossível fugir das lições que a história, mestra de vida, nos dá.

A finalidade destas jornadas é a de sair com convicções profundas; eventualmente, retificar idéias erradas; adquirir mais profundamente as idéias justas, ou seja, conforme ao ensinamento da Igreja; e, depois, acima de tudo ter uma vontade prática de continuar a História. Porque houve na História o triunfo e a luta contra o Reinado de Cristo, mas a História não acabou. Até o fim da história do homem deve-se buscar o triunfo do Reinado de Cristo.

Hoje aqui, portanto, devemos nos converter em verdadeiros apóstolos do Reinado Social de Cristo. Isso é algo essencial.

 

II – ESTADO ATUAL DA MATÉRIA E O MODERNISMO SOCIAL.

 

Dito isso, já que tenho exatamente uma hora de exposição, da qual já se passou quase cinco minutos, entremos no nosso assunto: O Reinado Social de Cristo.

Vejo aqui alguns rostos conhecidos, outros novos, porém sei que são de pessoas já convictas daquilo que estou para dizer. Infelizmente! Falar do Reinado Social de Cristo seria muito mais útil, se aqui estivessem presentes aqueles que não acreditam nele. O clima iria esquentar, mas, certamente, haveria a possibilidade de fazê-los conhecer algo indispensável.

O estado atual do movimento católico é lamentável, até mesmo chamá-lo de movimento católico é um abuso.

Por exemplo, Paolo Prodi, que faz parte de uma família que traz consigo uma grande história no movimento católico [na Itália], que está envolvido em ambientes culturais e políticos, e, por isso, deveria ter um empenho católico profundo em prol do Reinado Social de Cristo. Ao invés disso, li, há alguns dias, em algum jornal, que ele participou de uma conferência em uma loja do Grande Oriente da Itália. E, diante do Grão Mestre Raffi, ele fez um elogio ao papel da maçonaria: “Há tempos estamos unidos”. Tudo às claras, não se tenta esconder nada.

Seu irmão [Romano Prodi], o mais ilustre membro da Família, no referendum sobre a fecundação artificial, reclamou para si o título de católico adulto, autônomo do ensinamento da Igreja, que não precisa obedecer a ninguém [a não ser a própria consciência], que segue somente sua própria cabeça. Portanto católico na Igreja mas laico em política. Ora, isso é totalmente contrário ao Reinado Social de Cristo [RSC]

E se nós nos encontramos nessa situação terrível, isso se deve não só ao fato de que os inimigos da Igreja, aqueles que abertamente combatem Cristo, cumpriram seu papel, mas também porque aqueles que deveriam ser os principais representantes do Movimento Católico falharam.

Umberto Benigni

Trata-se assim, não só de lutar, como dizia Mons. Begnini (imagem a direita) contra os inimigos externos, mas também contra os internos. Contra aquilo que o papa Pio XI chamava o Modernismo Social. 

S. Pio X condenou, no princípio do século XX, ou seja, no século passado, o modernismo como a cloaca, a reunião de todas as heresias. Mas o modernismo, faz estragos em todos os campos, sobretudo no campo do dogma, da exegese bíblica, da história, e etc

Pio XI coloca em relevo uma outra sorte de modernismo, o modernismo social, que, aliás, aqui na Itália, teve como Pai um sacerdote: Don Rommulo Murri – condenado, excomungado por São Pio X – fundador da democracia cristã, a qual foi, salvo raros casos particulares, a causa e o instrumento maior desse Modernismo Social. Esse tema mereceria uma lição separada, algo que não poderei fazer agora.

 

III – DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DESSA DOUTRINA.

 

Falemos agora não em negativo, mas de modo positivo. Muitas vezes falar mal dos outros é desagradável. Falemos, então, bem de Nosso Senhor porque dele podemos e devemos falar bem.

 

A. O RSC é uma Doutrina Recente

O tema de Cristo Rei, reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, sob um certo aspecto, pode ser considerado relativamente novo. Isso porque, sobretudo nos anos 20 e 30, após a Encíclica Quas Primas de Pio XI, dada propriamente pelo ano Santo de 1925, em toda igreja católica no mundo inteiro, houve um grande fervor, um grande desenvolvimento da doutrina do RSC. A história assinala nos seus anais um grande número de Mártires que morreram, como era um termo corrente, difuso entre os católicos, ao grito: Viva Cristo Rei!

Temos o caso do México: Padre Pro e outros católicos cristeros que ao serem fuzilados gritavam: viva Cristo Rei!

Na Espanha, durante a guerra da Espanha, o símbolo do ódio do comunismo ateu, dos anarquistas, dos republicanos e todas essas pessoas que queimaram igrejas, mataram os sacerdotes. Pois bem, o símbolo que permanece é a famosa foto dos milicianos que com seus fuzis dispararam contra a estátua de Cristo Rei. É uma fotografia muito conhecida que mostra como, se por um lado, os católicos em tudo colocavam esse título de Cristo Rei, por outro os anti católicos, compreenderam muito bem quem era o seu inimigo, o próprio Cristo Rei.

Recordemos ainda do trabalho que a Universidade Católica do Sagrado Coração, nos anos 20 e 30 realizou, em prol do RSC. Portanto, é relativamente novo nesse sentido: data dos anos 20 e 30 o grande desenvolvimento do tema Cristo Rei.

 

B. É também uma doutrina já conhecida, porém sempre renovada.

Por outro lado, é um tema antigo. Sei que vocês que já estão convictos dele. Talvez até haja alguém pensando: “Esse padre veio de longe para falar de algo que já estamos cansados de saber”.

Porém, há várias pessoas que não sabem nada do assunto  e que, infelizmente, não estão aqui para ouvir. Mesmo entre católicos praticantes de anos e anos, mas, que, infelizmente, nunca ouviram falar da RSC.

Pio XI (img à direita) fixou… no último domingo de outubro, mês do Rosário, da Rainha das Vitórias, mês também de Cristo Rei, … fixou no último domingo de outubro a festividade litúrgica de Cristo Rei.

De fato, ele sabia que a liturgia tinha não só o escopo principal de render o culto devido a Deus. E, portanto, também a Deus como rei, a Cristo como rei. Mas também um outro grande papel pedagógico, que é secundário, mas importante.

Assim, para todos os católicos praticantes, que a cada ano estavam na igreja, era renovado nas orações, na liturgia, a ideia de que Cristo era o Rei, não somente dos indivíduos, mas, da sociedade.

Isso não acontece mais, não só porque a festa foi deslocada para o fim do ano litúrgico, mas também porque foi-lhe dada um significado totalmente diferente. Não mais O Reino Social de Cristo para combater a peste dos nossos dias: o laicismo. Ele foi substituído por um Reinado puramente espiritual, que se exerce sobretudo na Eternidade, no reino de Glória do céu. Ora, um reino não exclui o outro, esse é o fato.

 

IV – PRESSUPOSTO NECESSÁRIO DEUS.

 

Buscamos aqui entender, antes de tudo, o que se entende por RSC. Primeiramente, nós dizemos Reinado de Cristo e não de Deus. Ou seja, nós dizemos, nessa doutrina bem particular: Reinado de Cristo. Não por que não seja verdadeira a doutrina da realeza [do reinado] de Deus, mas porque é necessário especificar que a realeza de Deus é a de Cristo. Não somente enquanto Cristo é Deus, mas também enquanto Cristo é homem, já que Cristo é o homem Deus: verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Portanto, dois pontos já são sublinhados:

– a realeza de Deus;

– e a realeza de Cristo;

 

A. As filosofias modernas negam Deus e a objetividade do conhecimento de Deus.

A Realeza de Deus pressupõe duas coisas. Uma em absoluto que é a existência de Deus e depois a objetividade do conhecimento da existência de Deus. Um dos enganos dos nossos dias, a origem de tantos dos nossos males, é o subjetivismo. O fechar do homem no próprio eu, a privação do conhecimento do real, do Objetivo. A ideia de que não existe para o homem uma verdade objetiva que se impõe.

1. O problema da Verdade

Pilatos já dizia, cético: Quid est veritas? O que é a verdade?

O desfecho da filosofia moderna (iniciada por Kant, mas com raízes anteriores) é a renúncia à metafísica, ao conhecimento de Deus e dos primeiros princípios, ademais, a existência da Verdade, ou, pelo menos, a sua cognoscibilidade.

Então, quando não se afirma mais que a existência de Deus e os  seus atributos sejam verdades acessíveis à razão, mesmo sem a fé, com razão sozinha; quando se renuncia a esses pontos essenciais, é evidente que Deus se atingiria somente com os sentimentos, com um ato cego da vontade, de maneira totalmente subjetiva, e portanto, que não se impõe a todos mas somente aos que querem, aos que crêem.

2. Agnosticismo e Subjetivismo [como não se pode conhecer objetivamente Deus o que resta é a experiência religiosa]

E é exatamente por isso que a realeza de Cristo e a realeza de Deus são inconcebíveis no mundo de hoje, onde até mesmo os católicos se tornaram todos subjetivistas. E é por isso que não se alcança mais a fé, mas apenas o fideísmo: “eu quero crer porque me agrada, porque tenho um sentimento que me impulsiona a crer”.

Essa é a essência do modernismo que é precisamente um subjetivismo. Porém isso seria algo para outra conferência, uma jornada dedicada justamente a esse tema: Filosofia e conhecimento de Deus.

Então nos recordemos apenas desse primeiro princípio: Deus é cognoscível objetivamente pela razão.

 

V. DEUS AUTOR DA SOCIEDADE

 

Em seguida sabemos que Deus é um Deus Criador, criador do homem individual, de toda natureza, da natureza humana [social], e, consequentemente, da sociedade. Esse é o ponto que nos coloca dentro da doutrina do RSC.

Reinado SOCIAL, ou seja, sobre a sociedade e sobre os seus indivíduos. Isso deriva do fato de que Deus é Criador não só dos indivíduos, mas também da sociedade. São tantos testemunhos disso que aqui não me ponho a lê-los porque perderia tempo passando as páginas e seria aborrecido.

O magistério da igreja sobre esse tema que se chama a doutrina social da igreja, deveria ser a nossa fonte primária de inspiração. Não podemos nos dizer militantes católicos se não tenhamos lido e meditado profundamente as encíclicas dos Papas sobre a doutrina social da igreja. Pois bem, esse ensinamento da igreja recorda que Deus é Criador do homem e da sua natureza, e que a natureza humana é uma natureza social.

 

A. Natureza do Homem

O homem é um animal social – não é somente isso – mas é, também, um animal social. Ou seja, vive necessariamente em sociedade. A começar pela primeira sociedade humana: a família. Embora seja uma sociedade imperfeita, porque necessita de outras sociedades para realizar os próprios fins, ainda assim, é fundamento de todas as sociedades. Ela é uma sociedade natural, onde todos os homens nascem. Portanto, Deus é o autor também da família, coisa sagrada por si mesma, originada em Deus e que, portanto, não pode ser entendida como um simples contrato humano positivo. O matrimônio é um contrato, mas um contrato querido pelo próprio Deus.

Em seguida, é necessário levar em conta que Deus é autor da natureza social do homem, [é autor] da sociedade familiar e também da união de famílias, que, não podendo ter tudo sozinhas [realizar todos seus fins], se juntam para realizar o bem comum. Isso é a sociedade temporal, que também chamamos Estado, ou ainda, autoridade temporal: sociedade perfeita que tem como escopo obter o bem comum temporal dos próprios súditos, dos próprios sujeitos.

 

B. O autor da sociedade

Ora, Deus é o autor, não só de cada homem singular, mas, quando o homem se junta em sociedade, de toda a sociedade. A compreensão disso é absolutamente capital, é o primeiro passo.

De Deus, já diz a sagrada escritura: Per me Regis regnant [Por mim os reis reinam e os legisladores legislam]. Sem Ele não há Realeza, não há exercício da autoridade, que consiste na atividade legislativa [criação das leis] e em fazer observar as leis, através de prêmios e punições, incluindo a coerção. Esse é o primeiro escopo da autoridade temporal. “Por mim os reinos Reinos e os legisladores fazem as leis”. Portanto, temos um outro princípio basilar, antes de falar da realeza de Cristo. Vejamos os princípios naturais.

 

C. Domínio de Deus sobre a Sociedade.

Tudo que tenho dito até agora, ainda sem poder demonstrá-lo passo a passo, por causa do tempo, tudo isso segue uma consequência lógica. Recapitulando: Deus é autor da sociedade, é autor dos homens, da natureza humana [natureza social], portanto Deus deve governar sobre a sociedade [e sobre sua autoridade, sobre seu governo].

1. O testemunho da história.

Não pode o estado, a autoridade temporal, prescindir da autoridade de Deus sobre a sociedade. Isso é um dever. E que isso seja uma verdade de razão pode-se constatar pelo fato de que todos os homens, em todas as sociedades, sobre todas as latitudes, sempre reconheceram que a sociedade do homem se funda sobre Deus. Alguns pensavam sobre os deuses, já que não tinham o reto conhecimento de Deus. Outros até podiam pensar em um único deus que, no entanto, não era o único e verdadeiro.

Porém, nunca houve uma sociedade bem organizada que não tenha reconhecido a autoridade Divina e o culto que a Deus se devia render.

É uma característica tipicamente moderna… e devemos recorrer ao comunismo para ter um estado legitimamente ateu e à Revolução Francesa, em algum momento de delírio, que se apoiou somente sobre a razão humana, como única suprema autoridade.

Mas, sempre, para todos era reconhecido esse domínio de Deus sobre a sociedade. Exceto no caso do direito novo sob o qual falaremos na terceira e última lição.

Esse domínio deve ser reconhecido de alguma forma. Deve ser reconhecido para render-lhe o culto, para que a legislação dos homens se baseie na sua vontade e para que seja possível para os membros da sociedade dar culto à Deus.

 

D. Fonte de toda autoridade.

Temos aqui uma coisa importantíssima, que depois nos levará ao problema da democracia moderna, digo moderna porque democracia já conheciam os gregos. A democracia é uma forma de governo por si mesma legítima, não é a melhor, mas é legítima. Bem, o problema da democracia moderna é que um dos seus pontos fundamentais é que a autoridade vem do povo e não de Deus. Democracia significa poder do povo, mas o que realmente significa isso? O conceito exato e correto é esse: aquele que governa, pessoa ou indivíduo, normalmente um conjunto de pessoas, teve a autoridade designada, nomeada pelo povo.

Isso indica o modo de designação da autoridade. A autoridade é designada de várias maneiras pelo povo. Isso não é contrário nem a razão, nem a fé. Porém, quando se diz que o povo não só designa a autoridade, mas a provê pelo que seria a fonte de autoridade e que toda soberania e autoridade descende do povo e depois, por derivação, dos seus representantes,  quando se diz isso se diz uma heresia! Nem mais nem menos, um pecado mortal contra a fé. É uma heresia já que a autoridade vem de Deus: “toda autoridade vem de Deus”, diz São Paulo. Não só São Paulo, mas a própria razão o diz. Veremos adiante que nem toda autoridade é designada diretamente por Deus. Deus não faz ouvir sua voz dizendo: “quero que Tito governe”. Esse não é o modo normal com o qual Deus age. Temos então a diferença entre designação e fonte da autoridade. A pessoa que governa é normalmente designada pelos homens, mesmo o papa é designado pelos homens, não por todos homens mas por algumas pessoas: os cardeais. Todavia, a autoridade provém exclusivamente de Deus. Pelo que o papa recebe a autoridade de Deus, deve responder por ela e deve respeitar a autoridade de Deus enquanto a exerce. Isso que São Paulo fala sobre autoridade temporal se aplica também a toda paternidade. A escritura diz: “Toda paternidade vem de Deus”. Alguns dizem que a noção de pai transportamos pra Deus, porém na verdade é o contrário. Já que Deus é Pai, é que na terra outros podem ser pais. Omnis paternitas a Deo. Portanto, a autoridade doméstica, na família, não vêm somente de uma questão natural, mas de Deus autor da natureza.

Essa é uma verdade indispensável, que devemos manter contra qualquer afirmação contrária, sob pena de não sermos católicos, nem racionais.

 

E. As leis naturais absolutas tem em Deus sua razão.

Mesmo pessoas que por desventura e estultícia são incrédulas, quando refletem sobre o problema das leis humanas, percebem que negar que a autoridade e as leis tenham autoridade divina equivale a tornar tudo incerto, relativo, inclusive as maiores monstruosidades. Porque se uma lei humana é puramente fruto da vontade positiva dos homens, e essa se regula por maioria, não há limite para as leis humanas.

Se toda autoridade e lei vem de decisões livres dos homens, até mesmo para estabelecer o que é verdadeiro ou falso, lícito ou ilícito, se tudo depende só do direito positivo, a maioria poderia decidir, por exemplo, que todos os ruivos devem morrer. É um exemplo absurdo para entender como se chega, pela autonomia da autoridade de Deus, ao autoritarismo absoluto. Aquilo que ontem era crime amanhã pode se tornar dever. Pensemos na eutanásia, no aborto, o que era um crime se torna dever. As leis do estado se impõe sobre as consciências humanas. Assustador! Mas de onde vem tudo isso que torna tudo discutível? Vem do fato de que não se reconhece uma lei natural superior, que precede qualquer lei positiva, à qual as leis positivas do homem não podem estar em contraste.

Os homens podem definir certas coisas: O mercado abrirá às 8. Isso não se encontra na lei de Deus, é uma lei positiva. Faremos a ponte ali e não lá, etc. Essas são questões positivas

que o homem pode estabelecer, mas cuidado! Essas não podem jamais estar em contraste com o direito natural.

O direito natural, precedente ao homem, que se impõe a todos os homens, só pode vir de Deus, de um Legislador supremo, onde há uma lei é necessário que haja um legislador.

O direito natural escrito na natureza das coisas vêm do seu criador: Deus. Assim voltamos ao ponto inicial. Mas se negamos a supremacia de Deus sobre todas as coisas, a consequência é o arbítrio total, o totalitarismo mais absoluto da lei positiva humana, a negação de toda distinção fundamental entre bem e mal, verdadeiro e falso. Mesmo os direitos do homem tidos como inalienáveis cairiam no nada. Porque se eles vêm de um simples direito positivo dos homens que se unem na ONU, então amanhã eles poderiam mudar. (E em certos casos seria mesmo o caso de mudar porque alguns deles se põe contra o direito divino).

Ao contrário, há certas coisas que precedem as leis dos homens, estão acima da vontade dos homens, logo, são intocáveis. Então se há coisas superiores a vontade dos homens, logicamente deve-se recorrer a Deus. Senão de onde vem essa lei privada de legislador? Uma natureza privada de criador e de autor?

Continuemos porém, porque o tema é a Realeza de Cristo. (Eu sempre faço introduções longas). Realeza de Cristo, Autoridade de Deus, certo.

 

VI – REINADO SOCIAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

 

A. Naturalismo x Revelação Sobrenatural

Mas qual é o rosto desse Deus? Um Deus sem face? Sem nome? Cognoscível somente pela razão humana? E sabemos que a razão pode conhecer a Deus nos seus atributos principais, mas, pela fraqueza da razão humana… admitida mesmo pelos naturalistas, como é o caso do pensamento débil.

E de um certo modo eles estão certos, a razão é débil, sozinha não pode estabelecer todos os deveres de culto que a sociedade deve render a Deus, ou a vontade de Deus em questões morais, mesmo as naturais. Como essas coisas poderiam ser conhecidas com certeza? Sem erros, por todos os homens e de maneira definitiva? Eis o que infelizmente é difícil.

Não podemos permanecer… mesmo falando do ponto de vista da razão – admitindo Deus – não podemos parar no naturalismo. Naturalismo é a doutrina segundo a qual o sobrenatural não existe, é inacessível para a natureza humana – como por sua vez, [no outro extremo] o racionalismo o é – ainda que não haja mal em querer conformar nosso pensar e nosso agir com a razão. O erro do racionalismo é pensar que a razão seria o único lume, fora do qual não há nada. A mesma razão nos mostra que não pode ser assim, já que muitas coisas indispensáveis de saber superam as capacidades da razão humana.

Recapitulando… A razão diz: Deus é autor da sociedade é o soberano de tudo que criou do nada,  tudo fez e tudo Lhe pertence. Mas, como se trata de um Deus sobrenatural, superior a natureza humana, o homem sozinho não pode, por limitação da sua natureza, conhecê-Lo. Assim, parar no simples direito natural, que também deve ser defendido e que hoje é negado, é limitante, limitado, gravemente insuficiente. Porém essa é a última trincheira a qual hoje estão reduzidos os melhores católicos.

Quando se ouve criticar as leis infames e monstruosas de hoje, as críticas são, como dizem os melhores: “em nome do direito natural, da dignidade da pessoa”. Dignidade da pessoa com um grave erro de fundo. É verdade que há uma dignidade da pessoa humana, mas há sempre um grave erro de fundo. Porém todas essas questões são do âmbito puramente natural. E onde está o sobrenatural?

Uma simples defesa do direito natural, que se pode usar como ad hominem para os que não admitem Deus, mas uma simples defesa do direito natural, da dignidade humana, sem menção ao sobrenatural, sem menção de que há um Deus que está além da natureza humana, é limitada e limitante [do RSC]. Principalmente a Igreja que não é uma mestra de filosofia, mas é a guardiã da revelação sobrenatural, não pode e não deve se limitar ao direito natural. Porém, hoje, estamos reduzidos a isso.

Quem ainda diz: “Essa lei é contrária ao evangelho, é contrária a Lei de Deus e a Realeza de Cristo?” No máximo se diz: é contrária à dignidade do homem. Ora, é verdade que o aborto e a eutanásia são contrários à dignidade do homem e ao direito natural, mas são também contrários a realeza de Cristo.

Não podemos colocar a bandeira da realeza de Cristo numa caixa, de certa forma negando-a. Deve, portanto, ser abertamente alçada.

(Resta-nos 20 min. para falar do tema.)

 

B. Reinado Social de N. S. Jesus Cristo x Laicismo

Pio XI para combater a peste do laicismo – observem que não veio por acaso a escolha desse nome “peste”, para significar algo mortal e infeccioso. É contagioso e contagiou até os católicos. Quem o toca se contagia. Vivemos uma sociedade construída sobre o laicismo. Palavra falsa, laico se diz de quem não é clérigo, portanto o povo, não tem nada de mal em si. Mas o laicismo é uma palavra falsa, uma máscara para cobrir a vergonha do ateísmo. Laicismo quer dizer ateísmo, sociedade de fato atéia, que não conhece Deus, não O reconhece, senão na esfera privada.

Portanto, infelizmente, mesmo nós estamos intoxicados com esse mal. Quem vive na cidade tem os pulmões um pouco mais escuros, por respirar esse ar. Nós que vivemos no mundo de hoje somos todos infectados pelo laicismo, pelo liberalismo, e pelos erros modernos.

Porém, o que nos diz Pio XI? Ele nos diz: não basta falar da realeza de Deus. É necessário falar da realeza de Cristo, Cristo é Rei.

Portanto, não basta escrever no Dinheiro In God we trust (creio em Deus). Mas qual é o Deus?

1. Jesus Cristo x deus agnóstico

Um deus sem nome quando Ele nos revelou Seu Nome, um deus sem rosto, quando Ele nos revelou seu Rosto, não é o Deus Verdadeiro.

Quando São Paulo chega a Atenas, vê o altar ao deus desconhecido, diz: O Deus desconhecido que venerais. Porque entre todos os deuses que veneravam, tinham medo de deixar algum de lado. São Paulo diz: o Deus, que venerais sem saber quem é, lhes digo que é Jesus Cristo, Único Verdadeiro Deus morto e ressuscitado. A Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas uma vez que Deus mostrou Seu Rosto não é mais lícito elevar um altar ao deus desconhecido. Poderia ser lícito ao que vivia na total ignorância, hoje não é mais lícito.

O deus desconhecido é o Grande Arquiteto do Universo [GAU, melhor gau], ou seja, o deus tão vago que pode ser o deus de todos e de ninguém, crentes e não crentes, cristãos ou não. Esse é o deus que merece o culto do estado moderno, o gau. Com o termo arquiteto se designa um deus panteísta, não criador mas plasmador de elementos pré-existentes. Um demiurgo, não o Deus Criador, Verdadeiro Deus. Assim, o gau inventado nas lojas maçônicas, porque a propriedade das lojas é reunir em uma sociedade pessoas de todos os credos, onde cada um mantém, ou melhor, acredita manter a própria fé, mas todos se reconhecem irmãos.

De religião não se pode falar nas lojas, não porque não falem de religião, mas não se pode falar de religião no sentido confessional: qual é verdadeira e qual é falsa. O maçon deve dizer: você acredita nisso, eu naquilo e temos em comum o gau. Então até mesmo falar de uma autoridade divina [desse modo vago, agnóstico] é insuficiente.

A maçonaria francesa tirou o nome do gau se declarando abertamente atéia, a anglo-saxônica o mantém. Mas nós não queremos nem uma sociedade abertamente atéia, da Revolução Francesa ou do Comunismo, nem uma teísta da revolução americana e inglesa da qual falaremos depois.

 

C. Cristo Sacerdote, Rei e Profeta.

Devemos, absolutamente, dar um nome e um rosto, o verdadeiro Nome e verdadeiro Rosto, a esse Deus, do contrário tudo é vão. Esse Deus é Jesus Cristo. Como podem católicos cristãos batizados, não falarem mais da Realeza de Cristo, quando só o nome Cristo já significa Rei? Dizer Cristo Rei é uma Tautologia. É o Rei dos Reis, como diz o apocalipse: Rex regum et Dominus dominatio [Rei dos reis e Senhor dos senhores]. Dizer Cristo é dizer Rei. Com efeito, dizer Cristo, em hebraico Messias, em grego e latim Cristo, significa ungido, consagrado com óleo sagrado. No antigo testamento e antigas civilizações, o óleo sagrado era usado numa cerimônia sacra em que se ungia o sacerdote, ainda hoje, o sacerdote é ungido com o santo crisma. O óleo era usado também para ungir o rei, e assim foi também no tempo da Cristandade. Essa unção era utilizada para consagrar os profetas. Era, então, um símbolo de que o consagrado era ou rei, ou sacerdote ou profeta. Profeta não é só quem conhece o futuro, é o enviado de Deus, legado de Deus, que fala em nome de Deus.

Portanto, o Messias esperado deveria ser Rei, Sacerdote e Profeta.

1. A fé nos diz que Cristo é Rei e a fé tem razões de credibilidade.

Sabendo que Jesus é Rei… sabendo pela fé, mas mesmo a fé tem argumentos de credibilidade, pelos quais as verdades de fé do Cristianismo são razoáveis (Vaticano I). De tal modo que se impõe a uma razão reta e honesta, de todos os homens, de todos os tempos. Do contrário, não crer não seria uma culpa. Como Jesus poderia dizer: Quem não crê será condenado. “Deus não me deu a fé, que culpa eu tenho?” – Deus lhe ofereceu a fé. Deu-lhe os meios para conhecê-la, se os recusa é culpável. Assim, ainda que a fé seja superior a razão, é razoável aderir à Fé de Cristo e é irracional não aderir. Uma vez que ela tenha sido suficientemente apresentada, e esse é o maior problema. Mas esse é outro assunto de que não posso falar agora.

 

D. O que é o significa Cristo Rei?

A fé nos diz que Cristo é Rei, Sacerdote e Profeta. Como vamos falar da realeza, paremos no primeiro. Os hebreus esperavam, e esperam, o Messias. Portanto, esperavam o Rei de Israel. Nós temos uma sentença pública, um ato legal, e isso é algo sério para quem entende de Leis, uma sentença do Império Romano. Na sentença de Sua condenação havia: Jesus Nazareno Rei dos Judeus. Interrogado por Pilatos, por ser acusado pelos Judeus de ser Rei, Jesus responde: “Tu o dizes, sou Rei”. Portanto, Jesus reivindica o título real, que é confirmado, se acaso fosse necessário, pela sentença de Pilatos e também pela acusação dos judeus, embora não cressem n’Ele.

Cristo é Rei. E o que isso significa?

1. No sentido amplo, Rei é quem é excelente em algum aspecto. Cristo é em todos.

Pio XI, na Quas Primas, afirma que [o ser Rei de Cristo]: “Pode ser tomado, inicialmente, num sentido amplo”. Costuma-se chamar alguém, que tem um grau de excelência no ramo do café, de Rei do Café, não porque seja comandante dos produtores de café.

Certamente Cristo é Rei nesse sentido: Aquele que tem em todas as coisas o maior grau de excelência. Como Deus, é o ser perfeitíssimo. Enquanto homem, na sua humanidade, unida hipostaticamente ao Verbo de Deus, nenhum homem poderia atingir uma maior excelência que a de Cristo. Sua mente, sua verdade, é a maior inteligência que pode haver; sua vontade é a mais Santa, mesmo que estejamos falando da mente e vontade humanas de Cristo. Ele sobressai em todas as coisas. [Só por esses fatos] Já seria razoável seguir o homem mais excelente em todas as coisas. Seja pelo Seu conhecimento da verdade ou por Sua santidade da vontade. Ele é o Rei dos corações quando atrai para si todas as almas.

2. No sentido estrito, enquanto Homem, recebe do Pai a Realeza.

Diz ainda Pio XI: “É rei também no sentido estrito”. É necessário reivindicar a Cristo Homem, no verdadeiro sentido da palavra, o nome e o poder de Rei. Somente enquanto homem se pode dizer que recebeu do Pai o poder e a honra de Rei já que como verbo de Deus, da mesma substância do Pai, não poderia não ter em comum com o Pai aquilo que é próprio da divindade: o Absoluto Império sobre as criaturas. (Daniel 7,13)

Pio XI: “Ele reina como homem, o homem Cristo Jesus”. O Rei Imortal ressuscitado reina sobre todas as coisas mortais criadas. E, com qual direito Ele é Rei? Pode-se ser rei por direito natural: ‘sou rei porque meu pai é rei’, ou por direito de conquista: ‘sou rei porque conquistei essa terra’.

O papa nos diz: “Cristo é Rei tanto por direito natural quanto por conquista”. Por natureza, enquanto unigênito de Deus, e se Deus é o Rei, também seu unigênito o é. Mas também por conquista, regnavit a ligno Deus. É sacerdote e vítima e como tal nos redimiu sobre a Cruz, nos resgatou, recomprou-nos com seu sangue mais precioso que o ouro e a prata. Diz-se que essa casa é minha, porque a comprei e paguei caro. Todos esses homens são meus, porque os comprei a preço de sangue divino. Portanto, N. Senhor é realmente Rei.

 

E. Rei Todo Poderoso

Pio XI: “Rei, deve ser tomado pelo que significa o termo: consideramos Rei o Legislador, aquele que tem direito de fazer as leis. E depois aquele que tem também o poder executivo para fazer com que as leis sejam respeitadas”. Os Santos Evangelhos não só mostram como Jesus promulgou as leis, mas o mostram também no próprio ato de legislar.

A lei de Moisés, do antigo testamento, era sobretudo lei. O Evangelho é também lei, embora não seja somente isso. Todavia, a lei de Moisés, Jesus a interpretou e quando o acusam de violar o sábado, eis que Ele se disse ‘senhor do Sábado’. Superior a lei mesma de Moisés, que é a lei de Deus. Ele tem o poder judiciário. “O pai não julga ninguém, mas entrega ao filho todo juízo”. (João 5,22) E, no fim dos tempos, a faculdade executiva também será entregue a Jesus Cristo. Porque é necessário que todos obedeçam seu comando e as sanções por ele estabelecidas.

Portanto, os três poderes da democracia moderna, divididos pelo maçom Montesquieu: Legislativo, Judiciário e Executivo, se reúnem todos, pelo menos, na pessoa de Jesus Cristo, Rei Absoluto. Livre de qualquer vínculo que não seja o da Divina Vontade e da Divina Sabedoria – Sabedoria e Verdade que precedem a vontade.

 

F. Qual a natureza desse Reino?

Mas, o que dizer da natureza desse reino? Ele é Rei espiritual ou temporal?

(Já estou acabando, logo o Gnoco Frito e o Lambrusco que é o melhor.)

1. Para os judeus deveria ser um reino principalmente temporal

Os antigos judeus, na sua maior parte, interpretavam o reino messiânico como um reino puramente temporal: Já que o Messias era filho de Davi, logo seu reino deveria ser igual ao de Salomão e Davi. Um reino terreno, onde ele reinaria sobre esta terra expandindo os confins de Israel no mundo inteiro. É essa a miragem de Israel, que não entendeu a palavra de Deus. Era, segue sendo, e parece se prolongar. É esse um erro que os verdadeiros Israelitas não seguiam – ainda que os apóstolos tenham tido dificuldade de entendê-lo.

Cristo, portanto, não veio instaurar um reino temporal deste gênero: um reino somente temporal. É exatamente isso que escandalizou os judeus, quando viram que, como Rei dessa terra, Ele esteve derrotado: preso, aprisionado e crucificado – escândalo para os judeus. Não pode ser o Messias, porque não o mostrou com vitórias extraordinárias. Esperaram ainda um outro, e veio com Bar Kochba e outros que causaram, com sua insurreição contra Roma, a destruição total da cidade, do templo e do sacerdócio, como havia anunciado Cristo, em punição da crucifixão e da sua rejeição de Cristo – do Rei que lhes foi dado. “Não temos outro rei que não César”, César veio e fez o que devia. Assim, Cristo não é um rei puramente ou principalmente temporal. Era o que pensava Herodes quando temeu por seu trono.

2. Cristo tem autoridade também sobre todas as coisas temporais.

Porém, é também um reino temporal. Notemos que, mesmo entre os católicos, há quem duvidou que o Reino de Cristo fosse um reino temporal, que Cristo fosse um Rei Humano, que tinha o poder de governar sobre todos os homens e sobre todos os estados da terra. Porque, como vimos, Ele tem o poder não só sobre os indivíduos, mas também sobre a sociedade.

Por exemplo, sem ofensas, São Roberto Belarmino, doutor da Igreja, no âmbito de uma discussão sobre o poder da Igreja nas coisas temporais, negava à Igreja um poder direto, admitindo-o, porém, indireto, porque, dizia: ‘Cristo mesmo não tem um poder direto sobre as coisas temporais’. Bem, isso eram opiniões discutidas entre teólogos, mas a interpretação autêntica nos é dada pelo Magistério da Igreja. Porque só a Pedro foi dito: “És pedra e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja”.

Pio XI diz: “Ele inicia com algo espiritual… esse reino nos é apresentado como algo para o quê os homens devem se preparar pela penitência, e nele entram pela fé e o batismo…” – portanto, um reino principalmente espiritual, mas depois diz: “Por outro lado, erraria…” – na última tradução do Denzinger: “gravemente”; o latim diz: turpiter, de maneira torpe e vergonhosa –

“erraria torpemente quem tirasse de Cristo Homem o poder sobre todas as coisas temporais dado que recebeu do Pai um direito absoluto sobre todo o criado de modo que tudo se submeta ao Seu arbítrio”

Portanto, de per se, o único soberano de todas as coisas é Cristo.

Na história da França, há o episódio onde Joana D’arc, que salvou o trono do seu rei, apesar que aquele rei era um cismático… E ele pergunta a Joana D’Arc:

Rei: – Que desejais, Joana?

Joana: – Dai-me vosso Reino!

Como ela fez tanta coisa, ele [o Rei] faz um ato oficial cedendo o reino da França a Joana. Então, Joana pede ao Notário que escreva:

‘Joana cede o Reino da França a Cristo.’

Ela quis com esse gesto profético – os profetas têm gestos simbólicos – fazer entender a realidade: que Cristo é o Rei dos Reis. Quer dizer: “Esteja atento! Deus lhe fez essa coroa, use-a segundo a Sua Vontade, para não ir contra a Verdade.”

Em verdade, Cristo é Rei também temporal, é o verdadeiro e soberano rei de todas as coisas.

3. Situação atual

Um exemplo prático, em Turim, há poucos dias, uma Conselheira da Comuna [município] de Torino dizia: “Aqui devemos colocar um retrato do Presidente da República” e o presidente da Reunião, um Trotskista, disse: “Ótimo, coloquemos no lugar do Crucifixo”. Como sempre: “Tiremos o crucifixo”. A resposta para quem quer manter o crucifixo é, por acaso: “Ele está aqui porque é o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, e quem legisla deve estar sujeito a Ele!”? É esse o argumento? Não. “Ele é o símbolo do homem que sofre”. Como ninguém pode dizer, ou ninguém mais crê que Ele é o Rei dos reis e está ali porque comanda, querem mantê-lo por um motivo que faz rir, que causa dó. Não, nós não devemos ter medo de manter a posição correta. Hoje não há força política ou movimento religioso, exceto alguns gatos pingados, que tenham no seu programa o Reino Social de Cristo. São todos apóstatas. Todos! Isso é grave!

Agora devemos perguntar: O que nossa espada defende? Ninguém tem coragem de dizer: Cristo Rei.

É necessário convencer alguém de fazê-lo. E não voltar atrás, porque há quem tenha falado e voltado atrás.

 

G. Exercício do Reinado.

O que quer dizer Cristo Rei? Ele durante sua vida terrena não exercitou diretamente esse poder. O Pai lhe daria também a legião de anjos, mas Ele não o pediu. Todavia, diz o papa, ‘Se absteve de exercer tal poder’. E como uma vez desprezou possuir as coisas humanas, assim permite que os que o possuem [esse poder humano] se sirvam [dele]. A esse propósito se adaptam essas palavras: “Não tira o trono terreno aquele que doa o reino eterno do Céu”. Todavia, esse domínio, esse reino temporal de Cristo não é somente sobre os indivíduos, mas também sobre a sociedade.

Diz o papa: “Não há diferença entre o indivíduo e o consórcio doméstico e civil. Posto que os homens em sociedade não estão menos sobre o domínio de Cristo que quando sozinhos. Os homens sozinhos devem estar submissos a Cristo e quando se colocam em sociedade devem do mesmo modo estar submissos: na família, num sindicato, corporação, e, mais ainda, no estado.

Tudo deve estar submetido a Cristo. Se não está é apóstata. Onde não se conhece Cristo, portanto nas trevas da ignorância, é diferente. Mas onde ele esteve conhecido, e posteriormente deposto e recusado, onde isso aconteceu se formou uma sociedade apóstata e traidora.

(5 min e termino.)

Continua o papa: “É somente Ele a fonte da saúde privada e pública. Em nenhum outro há salvação. Disse São Pedro nos Atos: “nem sob o céu foi dado outro nome aos homens mediante o qual devemos ser salvos”.

O salmo diz: Nisi Dominus aedificaverit domum in vanum lavoraverunt qui aedificant eam [Se o Senhor não edificar a casa se afanam em vão os que a constroem].

Pelo que o Senhor Reina de qualquer forma, seja sobre a sociedade que o segue dando suas graças e benefícios temporais. Onde se obedece a lei de Cristo, a sociedade floresce.

E reina também com mão de ferro sobre aqueles que o rejeitam porque a recusa de Cristo traz todo mal e toda morte e destruição da sociedade – que infelizmente estamos constatando. Disse o Sagrado Coração: ‘Reinarei malgrado os meus adversários’.

Enquanto numa parábola de Cristo vemos os inimigos dizendo: Nolumus hunc regnare super nos [Não queremos que construa reino sobre nós]. Mas a resposta do Rei na parábola é: “Queimei e destruí sua cidade”. Esse é também o Evangelho.

Cristo, como dissemos, e assim finalizo, não reina diretamente – e assim quando falarmos da Igreja, na segunda lição, também a Igreja, na verdade, exceto em casos particulares, não exerce diretamente essa autoridade soberana que tem sobre toda sociedade, recebida de Cristo. Mas deixa o trono, o exercício do poder secular, às autoridades seculares.

Assim faz Cristo.

Cristo não veio para destronar Pilatos ou Tibério, veio para que também Pilatos e Tibério reconheçam o que disse: Ego sum Veritas [Eu sou a Verdade]. Para que também eles reconheçam que Cristo é Rei. Constantino e, logo depois dele Teodósio, reconhecera que Cristo era realmente Rei dos Reis e ambos depositaram suas coroas sob seus pés. E assim se formou a Cristandade da qual falaremos na próxima instrução.

 

VII – AS SOCIEDADES E CRISTO REI.

Brasão de São Pio X

Brasão de São Pio X. O seu lema era Instaurare omnia in Christo

 

A. Confessionalidade de todas sociedades. Instaurare Omnia In Christo.

Portanto, devemos considerar o Reino de Cristo em toda sociedade. O ponto fundamental do Pontificado de São Pio X era a confessionalidade de todas as sociedades. O erro da democracia cristã como movimento político, não como doutrina teórica admissível num certo sentido, o erro é a aconfessionalidade. “O estado e também meu movimento devem ser aconfessionais, portanto, não reconhecem Cristo. É de inspiração cristã, mas não reconhece o Reino de Cristo – porque não é confessional – nem Cristo e nem a sua Igreja.” E assim, sindicatos e corporações devem se inspirar em Cristo, mas no puro sentido da razão, não reconhecem a autoridade e o Reino de Cristo.

Nolumus hunc regnare super nos [não queremos que construa reino sobre nós]. São Pio X condenava esse erro falando do confessionalismo. É necessário reconhecer a Cristo e, em concreto, posto que o Reino de Cristo é também a sua Igreja, Reino de Deus na Terra, deve ser reconhecida como a única fundada por Cristo. Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana (Onde Cristo é Romano, como dizia Dante).

Aqui concluo. É esse o grande ponto. Levantemos o estandarte de Cristo Rei, não nos envergonhemos desse Rei. Não tentemos saber mais que Ele.

 

B. A Lei do Evangelho é Lei sobrenatural.

Por fim, um detalhe, e aqui termino. Uma pequena distinção, eu disse que o Reino de Cristo é temporal, mas nem Ele nem sua Igreja o exercem diretamente, com raras exceções. Ele o deixa ao poder secular, que depois renderá contas a Deus. Do mesmo modo, o evangelho, mesmo sendo uma lei, não pode ser tomado como um código penal ou civil. Isso se podia fazer com a Torá, a Lei de Moisés que era sobretudo uma lei, que regulava também a vida civil.

O Evangelho, sendo lei sobretudo espiritual, regula sobretudo a vida sobrenatural dos homens. Portanto, não posso transportar o evangelho tal qual para a Lei civil. No cristianismo se desenvolve o direito civil e penal, eles não estão englobados na lei sagrada, como acontece no caso do poder secular [que está englobado no poder de Cristo].

Assim há uma distinção dos poderes. Não separação. Por exemplo, o Evangelho pune os pecados internos, toda a moralidade é interna, na vontade do homem; onde a autoridade secular não pode atuar, porque não conhece o interno dos homens, e não deve, porque seria uma tirania exagerada. Não pode entrar, por exemplo: julgar se alguém é bom ou mau no seu coração. O estado não pode punir se desejei algo que não era meu, apenas se eu o roubei.

 

C. O Evangelho é a alma das leis civis.

Mas, as leis seculares não podem ser contrárias à lei de Cristo, sob pena de nulidade. Devem ser inspiradas na lei de Cristo, mas não podem se aplicar tal e qual a Lei de Cristo. Por exemplo, a prostituição, problema que existe há séculos, dito ofício mais antigo do mundo. Mesmo em estados católicos, embora com mil limitações, era tolerado. Porque o estado civil deve guardar o bem comum temporal. E nesses casos abolir certos males pode gerar males maiores. Já a lei do evangelho deve procurar a perfeição da alma e o mínimo pecado mortal é punido com o inferno e o estado de graça com a vida eterna.

Não devemos confundir as duas ordens, mas também não devemos separar as duas ordens. Corpo e alma são duas coisas distintas, se se separam se morre.

Por | 2018-11-20T17:23:33+00:00 30/08/2018|Doutrina|0 Comentários

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