//Sozinho em Casa?

Sozinho em Casa?

No meu recente panfleto, Canon Law and Common Sense (Lei Canônica e Senso Comum), mencionei um certo tipo de pessoa que ocasionalmente encontramos no meio tradicionalista: o leigo que trata o Código de Direito Canônico como um instrumento para classificar todos como não católicos.

O conselho prático que ele dá é sempre o mesmo: todas as capelas e sacerdotes tradicionais são ilícitos e, portanto, malignos; Fique em casa no domingo. Sua vida religiosa, portanto, acaba se tornando uma reprise perpétua de ‘Home Alone’(referência ao filme Esqueceram de Mim), mas sem o final feliz.

Recentemente, os adeptos dessa posição também alegaram que suas condenações se baseiam na doutrina católica infalivelmente proclamada pelo Concílio de Trento. Eles fazem várias fotocopias das seções do Decreto do Concílio sobre as Ordens Sagradas, sublinhando as seguintes passagens:

O santo Sínodo ensina, além disso, …que aqueles que por sua própria temeridade tomam esses cargos sobre si mesmos, não são ministros da Igreja, mas devem ser considerados como “ladrões e assaltantes que não entraram pela porta”.
Can. 7. Se alguém disser … que aqueles que não foram ordenados ou enviados por autoridade eclesiástica e canônica, mas vieram de uma fonte diferente, são ministros legais da palavra e dos sacramentos: seja anátema.

Essas passagens são geralmente acompanhadas de notas manuscritas, trabalho de algum anônimo canonista da turma do ‘fique-em-casa’. O argumento é o seguinte: Os sacerdotes tradicionais trabalham sem as devidas permissões canônicas. Eles, portanto, “tomam esses cargos sobre si mesmos”, e não são ministros da Igreja, mas ladrões (essas frases sempre aparecem em destaque). Eles não foram “corretamente” ordenados em conformidade com a lei canônica, nem foram “enviados por autoridade eclesiástica e canônica”. Pelo contrário, os padres tradicionais “vêm de uma fonte diferente” e, portanto, não são ” Ministros legítimos da palavra e dos sacramentos.” Se você disser o contrário, você está negando o dogma católico (sublinhado em dobro, bem destacado), e incorre no anátema – fora da igreja! (Duplo, ou melhor, triplo sublinhado!)

Você não pode assistir à missa desses padres e permanecer Católico: FIQUE EM CASA.

Sempre que a Igreja condenou uma falsa proposição doutrinária, ela atribuiu a ela uma censura que expressava precisamente o grau do erro: por exemplo,: “herético”, “favorável à heresia”, “imprudente”, “ofensivo aos ouvidos piedosos”, etc. No entanto, a Igreja deveria criar uma nova categoria – uma intitulada “realmente estúpido“.

Pareço muito duro? Bem, vejamos:

(1) Nosso canonista ‘fique-em-casa’ (ou doméstico) pensa que o Concílio de Trento estava condenando uma coisa, quando na verdade estava condenando outra.

(2) Ele baseou seu argumento em uma tradução defeituosa, mas não percebe isso, pois não sabe latim.

1. Trento condena a Ordenação ‘Leiga’.

O propósito do decreto de Trento sobre as Ordens Sagradas era reafirmar a doutrina católica sobre o sacramento da Ordem, e condenar todo um grupo de heresias protestantes a respeito – por exemplo, que a Ordem não é um sacramento, mas uma invenção humana, que as Ordens Menores não existem, que todos os cristãos são sacerdotes, que não há hierarquia de Ordens, etc.

Entre as heresias protestantes que o Concílio condenou havia uma que afirmava que o assentimento do povo ou do magistrado civil é tudo o que você precisa para fazer de alguém um ministro da palavra e os sacramentos. Essa heresia nega o caráter sacramental das Ordens Sagradas. Reduz o sacerdócio a um cargo político desprovido de qualquer poder sacramental objetivo.

O ‘fique-em-casa’ tropeçou na linguagem do decreto que condena a heresia das ordens laicas e a leu (errôneamente) como uma condenação dos padres ordenados sem cartas dimissórias (litterae dimissoriae) de um bispo diocesano, ou alguma outra coisa semelhante. Ele poderia ter descoberto esse erro, se tivesse lido a primeira parte da frase (ver abaixo em negrito), em vez de apenas a frase que ele sublinhou no final:

O santo Sínodo ensina, além disso, que na ORDENAÇÃO DOS BISPOS, DOS SACERDOTES E de outras ordens, o consentimento, a chamada, ou a autoridade do povo, ou de qualquer poder secular ou magistrado não é desse modo requerida para a validade da ordenação; Mas, ao contrário, decreta que aqueles que são chamados e instituídos somente pelo povo [destaque original da tradução de 1954], ou pelo poder civil ou magistrado e passem a exercer esses ofícios, e que aqueles que por sua própria temeridade tomam esses cargos sobre si próprios , não são ministros da Igreja, mas devem ser considerados como “ladrões e assaltantes, que não entraram pela porta” (Dz 960).

Dessa primeira parte da frase, está absolutamente claro quem é que o Concílio denuncia como “ladrões e assaltantes”: aqueles que recebem apenas uma espécie de ordenação ‘leiga’ do povo ou do estado (e não a verdadeira ordenação sacramental de um bispo), e então passaram a desempenhar funções sacramentais e ministeriais próprias apenas de um sacerdote ordenado.

O sujeito também cita o cânon 7, que segue o decreto doutrinário sobre as Ordens Sagradas. O cânon, diz ele, condena de maneira infalível aqueles que operam sem “autoridade oficialmente delegada”.

Isso também é completamente falso. A passagem no Cânon 7 corresponde à passagem do decreto doutrinário e (como o decreto) nada diz sobre “autoridade oficialmente delegada”. Simplesmente condena mais solenemente o que o decreto doutrinal condena: a posição protestante de que uma espécie de “Ordenação leiga” basta para conferir sacramentos.

2. Uma tradução defeituosa.

Esses supostos canonistas apontam para duas frases do cânon, mencionadas abaixo em negrito, que eles acreditam condenar os clérigos que não receberam as várias permissões que o direito canônico exige antes da ordenação:

Se alguém diz … que aqueles que não foram corretamente ordenados ou enviados por autoridade eclesiástica e canônica, mas vieram de uma fonte diferente, são ministros legítimos da palavra e dos sacramentos: seja anátema.

Aqui, o que começou como tragédia termina como farsa. A tradução que os ‘fique-em-casa’ usaram para as frases em negrito revela-se defeituosa. Os sujeitos, ignorantes do Latim, basearam seu argumento inteiro nestas frases mal traduzidas. Aqui o texto em latim da Canon 7 e uma tradução correta:

Si quis dixerit… ordines ab ipsis [episcopis] collatos sine populi vel potestatis saecularis consensu aut vocatione irritos esse; aut eos, qui nec ab ecclesiastica et canonica potestate rite ordinati nec missi sunt, sed aliunde veniunt, legitimos esse verbi et sacramentorum minstros: A.S.  (Dz 967)

Se alguém diz … que as ordens conferidas pelos [bispos] sem o consentimento do povo ou do poder secular são inválidas; Ou que aqueles, que não foram ordenados pelo poder eclesiástico e canônico com as cerimônias apropriadas nem enviados, mas vieram de outros lugares, são ministros legais da palavra e dos sacramentos: seja anátema.

A frase em negrito apresenta uma imagem completamente diferente. Os canonistas domésticos escreveram resmas de polêmica contra os sacerdotes tradicionais, tudo baseado no pressuposto de que a frase “ordenado corretamente” tem algo a ver com a observação dos Ps e Qs da lei canônica sobre a obtenção de permissões para realizar ordenações. Mas a expressão latina rite ordinati não significa algo como “corretamente ordenado segundo a lei canônica”. Rite, significa antes (ordenado) de acordo “com todas as cerimônias litúrgicas adequadas” – e todo padre tradicionalista que eu conheço foi.[1]

Outra frase do Direito Canônico que os canonistas domésticos adoram é “enviado pela autoridade canônica e eclesiástica”, mais uma vez erro de tradução. Para os iniciantes, o “pela” vou deslocado na tradução. Em latim, ele modifica o ordenado, não o enviado. “Autoridade”, além disso, é uma tradução incorreta para potestas, que significa poder. Especificamente o poder sacramental da Igreja, aqui referido como poder eclesiástico e canônico (ecclesiastica et canonica potestate), para distinguir-se do poder puramente secular (potestatis saecularis) considerado suficiente para os protestantes para criar um ministro sacramental, algo apontado para condenação na frase precedente.

Simplificando, O Canon 7, em latim, não diz o que os canonistas domésticos pensaram que disse. Pelo contrário, o cânon condena o ministério sacramental sem a verdadeira ordenação sacramental.

 

* * * * *

 

As passagens do Concílio de Trento que nosso canonista solitário tão ansiosamente tomou não podem, de modo algum, ser aplicadas aos padres tradicionalistas católicos. As passagens condenam uma heresia protestante específica: que o consentimento do povo ou do governo civil é suficiente (ou necessário) para autorizar os homens como “ministros legítimos da palavra e dos sacramentos”. Nenhum sacerdote católico tradicional ensina isso.

Nosso canonista solitário (doméstico) conseguiu, assim, entender tudo errado. Ele interpretou mal um decreto do Concílio de Trento, inventou falsas acusações contra os padres católicos tradicionalistas e emitiu um anátema com base em uma tradução defeituosa – o suficiente, sem dúvida, para merecer a nova censura teológica de “realmente estúpido”.

Erros em dogmática, teologia moral e direito canônico são moeda corrente desse tipo de teólogo doméstico. Refutar suas tolices cada vez que tentam lançar mais católicos tradicionais para fora da Igreja é, em última análise, uma perda de tempo. Eles simplesmente viram a página do Volume único de suas paráfrases do direito canônico ou seu Denzinger de Traduções erradas em vernáculo, e tentam inventar mais uma razão para condenar todos os outros.

Onde isso levou os canonistas solitários domésticos é óbvio – para um exílio amargo sem sacramentos. Talvez  seu orgulho os ter levado a abordar questões anos-luz acima de suas próprias habilidades.

O melhor antídoto para tal loucura é o senso comum. A Igreja, com seu ministério sacramental e hierarquia visível, continuará até o fim dos tempos e os católicos continuarão obedecendo ao Terceiro Mandamento, bem como seus antepassados. É tudo tão simples que uma criança poderia descobrir.

Experimente com um menino de oito anos no próximo domingo: mesmo ele sabe que você não deve FICAR EM CASA SOZINHO.
(27 de Fevereiro de 1993)

 

Fonte: http://www.traditionalmass.org/articles/article.php?id=55&catname=10

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Notas

[1] Os canonistas domésticos tentaram utilizar dois outros termos para apoiar suas condenações: (1) “Regularmente ordenados”. Isso os ‘fique-em-casa’ trouxeram descontextualizado da Profissão de Fé prescrita para os hereges Valdenses (Dz 424). O objetivo da passagem era conseguir os Valdenses abjurassem de sua heresia que sustentava que alguém, mesmo não sendo um sacerdote ordenado, poderia consagrar a Eucaristia. Aqui, regulariter significa meramente “ordenado da maneira usual”, em contraste com os Valdenses “não ordenados de forma alguma”. (2) A denúncia do Concílio Lateranense de “ordenações vãs desconhecidas para a regra eclesiástica” (Dz 274). Isso é apenas parte de uma excomunhão imposta contra aqueles que ousassem ordenar hereges monotelitas. A ignorância dos canonistas domésticos sobre o latim e a tendência deles em tirar frases do seu contexto os enganou aqui novamente. Ordinationes vacuas ecclesiasticae regulae incognitas é a frase original. Uma ordenação que é vacua não é meramente “vã”; Ele é inválida. Uma tradução mais precisa seria: “Ordenações inválidas não reconhecidas pela lei eclesiástica” – outra questão canônica totalmente alheia, obviamente, uma vez que a validade e não a liceidade é a questão. Finalmente, é difícil ver como uma das duas restrições se aplicaria aos padres tradicionais, uma vez que muito poucos de nós (eu suspeito) são Valdenses ou Monothelitas.

Por | 2017-05-05T20:15:55+00:00 20/03/2017|Controvérsias|0 Comentários

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