A Crise Impossível

//A Crise Impossível

A Crise Impossível

por John Daly

Publicado pela primeira vez em The Four Marks a partir de abril de 2009. The Impossible Crisis foi proferida por John Daly em seminário realizado em Verona, New York em 2002.

[Divisão em capítulos de nossa autoria. Os textos entre colchetes são acréscimos nossos]

 

 

 

I. Introdução

 

 

A. O que é o sedevacantismo.

 

Reverendo Padre, Senhoras e Senhores

Essa conferência é dedicada a estabelecer alguns argumentos em favor do sedevacantismo.

Antes de começar, devo assegurar-me que todos entendam o que o sedevacantismo é, e o que ele não é. Sedevacantismo é a convicção de que a Santa Sé está vacante. Se você acredita que a Igreja Católica hoje não tem papa – não tem um verdadeiro, válido e legítimo sucessor de Pedro – você é um sedevacantista;

Então, gostaria de enfatizar que sedevacantismo não é um movimento. Há sedevacantistas que somente vão a Missa de padres sedevacantistas; há sedevacantistas que vão em outros lugares (FSSPX, etc). Da mesma forma, há pessoas que vão a Missas de padres sedevacantistas sem serem eles mesmos sedevacantistas. Então sedevacantismo não é questão de com quem uma pessoa está associada, ou se pensa que mulheres deveriam usar calças, ou qual a opinião que tem sobre rastros químicos no céu, ou o estado dental do Arcebispo Thuc – A questão é se você reconhece ou não João Paulo II (ou hoje Francisco. n.d.t.) como cabeça visível da Igreja de Cristo.

E como é uma convicção, não um movimento, o sedevacantismo como tal não tem por si objetivos ou exerce em si mesmo uma atividade inerente. Se você veio aqui hoje pra nos escutar falar sobre a melhor forma de restaurar a ordem Católica, ou aumentar o número de Católicos tradicionais, ou conseguir mais assinantes para sua lista católica, você ficará desapontado. O escopo dessas duas palestras não será se o sedevacantismo é útil.

O assunto será se o sedevacantismo é verdadeiro. Se é verdade que João Paulo II não é o Vigário de Cristo, a verdade continuará obstinadamente sendo verdade quer gostemos disso ou não, e, independentemente do que façamos a respeito. Um proeminente escritor de Remnant recentemente disse que o sedevacantismo vai destruir o movimento tradicional. Isso não é verdade, e mais importante ainda, não é relevante. Não se amamos a verdade.

Existem muitos fatos pouco conhecidos e bastante inconvenientes, mas não por isso deixam de ser fatos. Se você descobrir um nódulo tumoral nas axilas, ou que suas despesas estão excedendo sua receita, ou se seu carro começa a fazer barulho e cheirar mal… você não para pra pensar se cancêr, falência ou cilindro quebrado são coisas populares ou desejáveis: você quer saber a verdade, por inconveniente que seja. E a verdade deve ser baseada em evidência. No caso da verdade Católica, ela deve ser baseada no que a Igreja nos diz pelos seus ensinamentos, suas leis, seus teólogos, etc.

A palavra sedevacantismo é, obviamente, um neologismo – inventado no fim dos anos 70. É uma etiqueta, assim como a palavra tradicionalista – pessoas de fora costumam criar apelidos bem convenientes para identificar certos grupos e esses apelidos geralmente pegam. O que importa é captar o significado do termo. Aqui um teste: se você entendeu corretamente o termo, você entendeu também que sempre que um papa morre todo o mundo Católico se torna ‘sedevacantista’. E se você ainda não é um sedevacantista, então poderia ser chamado de sedeplenista.

E, é claro, sedevacantismo não tem nada a ver com a rejeição do papado. Aceitamos o papado e todos os papas, simplesmente não pensamos que Karol Wojtyla seja um. E baseamos essa convicção nos ensinamentos e leis da Igreja Católica.

 

B. Duas vias de demonstração da Vacância

 

Hoje você ouvirá duas palestras sobre o sedevacantismo e cada uma apresentará um simples argumento, porque há duas formas fundamentalmente diferentes de provar que João Paulo II não é papa.

Suponhamos que alguém lhe ofereça um anel que aparenta ser de ouro mas é uma falsificação. Há duas formas de mostrar que o anel é falso. A primeira é mostrar que ele não possui as características que um de ouro deve ter. A segunda é mostrar que de fato o anel é de outro material, bem diferente de ouro e incompatível com o ser do ouro. Por exemplo, se você passa um imã perto e o anel gruda no imã, você percebe que tem nas mãos algum metal e não ouro puro.

Na análise de João Paulo II, o senhor Lane argumentará que ele é um herege público e que um herege público não pode, em nenhuma circunstância, ser um verdadeiro papa. Ele vai passar o imã da heresia sobre JPII e ele vai grudar, mostrando-se como um metal propenso a ferrugem.

Porém esse argumento não será o meu, é algo que o senhor Lane apresentará com grande competência.

Meu trabalho não é mostrar que Karol Wojtyla é um herege. E nem mesmo fazer um inquérito sobre o caso de porque ele não é o papa. Apenas mostrarei que um verdadeiro papa está protegido pelo Espírito Santo de fazer o que KW faz, e por consequência ele não pode ser o papa.

Ao fazê-lo será necessária uma considerável discussão a respeito do corpo religioso do qual KW é cabeça: um corpo que se apresenta como Igreja Conciliar. Eu pretendo mostrar que essa igreja demonstra uma incompatibilidade essencial com o Catolicismo – ou seja, esse corpo adotou doutrinas, costumes, leis e cerimônias que a Igreja Católica (por sua própria natureza. N.d.T.) não só não deveria, como não poderia adotar.

 

 

C. Apresentação da Primeira Via por um breve silogismo

 

Permitam que eu resuma meu argumento.

PREMISSA MAIOR

Eu afirmo que a Igreja mesma nos ensina que ela é infalível e indefectível, não somente nos seus ensinamentos do Magistério Extraordinário, mas também no seu Magistério Ordinário e Universal; Nas suas leis, na sua liturgia e no seu ensinamento universal transmitido diariamente aos fiéis por todos os meios costumeiros que ela o faz. Não pode em nenhum deles [desses meios NdT] ensinar erros opostos ainda que indiretamente à revelação divina, nem contradizer o que ela disse antes, nem induzir os fiéis ao erro ao pecado ou ainda apartá-los da verdade e da santidade.

PREMISSA MENOR

Afirmo ainda que a Igreja Conciliar faz tudo isso que a Verdadeira Igreja é incapaz de fazer em qualquer circunstância. A Liturgia, as leis e o ensinamento ordinário unânime da Igreja Conciliar, além de suas práticas, são incompatíveis com a doutrina Católica e induz inúmeras almas na direção da heresia da apostasia e da condenação eterna.

CONCLUSÃO

Por consequência lógica, a Igreja Conciliar não é a Igreja Católica e sua cabeça não é um papa.

 

 

II. Posições contrárias ao sedevacantismo.

 

A. Objeção comum.

 

Agora, há várias objeções que podem ser postas contra esse argumento, mas não há dúvida de que uma das mais comuns é a vinda daqueles que adotam posturas alinhadas com as da FSSPX. Essa objeção afirma que estaríamos exagerando o escopo da Infalibilidade e indefectibilidade da Igreja, e que o que nós chamamos impossível, na verdade é apenas indesejável e não usual, mas não seria contrário a nenhuma promessa divina.

Eu penso que esse é o ponto principal de divergência entre os tradicionalistas sedevacantistas e os tradicionalistas ‘sedeocupantistas’ [ou sedeplenistas]. E é por isso que vou citar várias autoridades tratando precisamente essa questão.

 

 

B. Panorâma histórico das divergências

 

Porém antes de fazer isso, lembremos o panorâma histórico dessa divergência. Através dos anos 60 e ainda no início dos 70 ocorre o que  se costuma chamar “mudanças na Igreja”. A Missa passou por uma série de estágios até se tornar uma cerimônia vernacular estilo protestante. Todos os outros sacramentos também foram alterados. Do mesmo modo, as vestes e os costumes dos padres e religiosos, suas cerimônias e tradições. Cessaram as condenações – exceto para aqueles que se recusavam a aceitar as mudanças. Cultos conjuntos com não-católicos, previamente um pecado mortal, tornaram-se permitidos e mais ainda desejáveis. Nações que em suas constituição concediam privilégios a Igreja fundada por Deus, foram constrangidos a alterar suas constituições para remover esses privilégios. Algumas doutrinas desapareceram, especialmente as que falavam da condenação eterna e da necessidade de pertencer a única Igreja Verdadeira. Ensinamentos morais inconvenientes, quando mencionados, apareciam com ressalvas ligadas aos supostos direitos da consciência. E muito mais.

No início, não havia quem fosse capaz de entender a natureza dessa crise. Só um tolo culparia alguém por não entender em 1968 que o que se enfrentava era uma nova falsa religião. Mas, em 1968, já circulavam as novas orações Eucarísticas e o novo rito de ordenação, ainda antes da assim chamada Missa Nova.

A questão é que em entre 1969 e 1970 muitos padres e leigos em consciência não podiam aceitar o Novus Ordo (a Missa Nova), mas a possibilidade de que Paulo VI poderia não ser um papa verdadeiro, não era concebível. Para explicar e justificar a rejeição do que aparentemente eram leis e ensinamentos dos papas, o movimento tradicional emergente acostumou-se a enfatizar os [supostos] limites da infalibilidade. Tornou-se costume afirmar que somente ensinamentos ex cathedra eram infalíveis e que os ritos, as encíclicas, etc. não tinham essa proteção especial. Isso é compreensível, porém, escancaradamente contrário a doutrina Católica, como devemos ver.

 

 

C. Incoerência dos objetores.

 

E é claro, que aqueles que adotaram essa posição rapidamente se viram em terreno inconsistente. Disso segue-se que vemos tradicionalistas condenando os modernistas por se recusarem em aceitar os ensinamentos doutrinais presentes nas encíclicas papais, por exemplo, condenando a contracepção. Mas eles mesmos triunfantes rejeitavam ou ignoravam os ensinamentos das encíclicas dos ‘papas’ pós concílio.

 

 

III. Demonstração da Premissa Maior.

 

 

A. O Concílio do Vaticano  (Vaticano I)

 

Penso que temos aqui terreno aberto para reabrir a questão.

Coloquemos de lado velhos hábitos e conceitos e olhemos de coração aberto para o que a Igreja mesma ensinou sobre sua infalibilidade e indefectibilidade. Até onde essa infalibilidade se estende?

Comecemos com o Concílio do Vaticano em 1870. Todos sabemos que o concílio definiu a infalibilidade das definições doutrinais ex cathedra. Mas ele afirmou ou sugeriu que a infalibilidade se limita exclusivamente a elas?

Longe disso… Ele claramente ensinou que os católicos devem crer com fé divina em todas as coisas que a Igreja ensina como divinamente reveladas, quer seja por juízo solene, quer seja pelo Magistério Ordinário Universal (Dz 1792). Os dois são correlatos. Eles impõem o mesmo nível de assentimento. Eles são igualmente infalíveis. Então por que o Vaticano I se concentra sobre a infalibilidade papal do Magistério extraordinário? Simplesmente porque esta era a doutrina que estava sendo questionada naquele tempo – notadamente na França.

A infalibilidade do Magistério Ordinário sob certas condições era uma verdade tão bem conhecida por todos os católicos que não foi necessário não mais do que uma breve menção a ela. E era a infalibilidade da definição papal solene que precisava ser sublinhada.

Hoje no movimento tradicional o oposto parece se aplicar. Tem-se a impressão de que ao definir a infalibilidade do Magistério Extraordinário do papa, a Igreja relegou ao esquecimento o dogma da infalibilidade de seu Magistério Ordinário e Universal.

De fato, esse erro já se arrastava desde muito antes do Vaticano II (V2).

(Must I Believe It? Canon Smith, Clergy Review 1940s):

“Não é de modo algum incomum encontrar a opinião, senão expressa, ao menos cultivada, de que nenhuma doutrina deve ser considerada dogma de fé a não ser que tenha sido definida solenemente por um Concílio Ecumênico ou pelo próprio Soberano Pontífice. Isso não é necessário de maneira alguma. Basta que a Igreja a ensine em seu Magistério Ordinário, exercido através dos Pastores dos fiéis, os Bispos, cujo ensinamento unânime por todo o orbe católico, seja comunicado expressamente através de cartas pastorais, catecismos emitidos pela autoridade episcopal, sínodos provinciais, seja implicitamente através de orações e práticas religiosas permitidas ou encorajadas, ou através do ensinamento de teólogos aprovados, [tudo isso] não é menos infalível do que uma definição solene promulgada por um Papa ou um Concílio Geral”

 

 

B. O Magistério Ordinário Universal é Infalível

 

Então agora sabemos que ele é infalível, olhemos mais de perto para o que é este Magistério Ordinário.

Existe uma certa confusão entre os católicos que tem procurado entender o conceito de Infalibilidade do Magistério Ordinário, causada pelo fato de que os católicos sabem que toda encíclica papal, toda carta pastoral do bispo, todo catecismo aprovado, toda oração do Missal ou Breviário e toda lei no Código de Direito Canônico da Igreja, tudo isso é parte do Magistério Ordinário. E, apesar disso, eles obviamente não são todos infalíveis em si mesmos como são os pronunciamentos ex cathedra.

Porém, não há mistério aqui. Permitam-me uma comparação. Germes podem causar doenças, mas é necessário um monte de germes agindo no mesmo lugar e ao mesmo tempo para que doença possa se manifestar. Os atos individuais do Magistério ordinário não são positivamente infalíveis como uma definição doutrinal. Mas pelo seu peso e número ele se vincula à infalibilidade. Uma declaração isolada em uma encíclica papal normalmente não se iguala a uma definição doutrinal. Uma doutrina ensinada nas cartas pastorais de um punhado de bispos não equivalem a um concílio geral. Mas quando as declarações dos papas e/ou bispos e outras fontes que representam a Igreja são tão numerosas e concordes de modo que os fiéis inevitavelmente considerem este ensinamento como sendo próprio da Igreja – então temos um ensinamento que possui de fato a mesma autoridade e exige o mesmo grau de assentimento daquele que foi ensinado mediante uma definição solene.

Quando digo que os fiéis consideram este ensinamento como sendo próprio da Igreja, quero dizer que a grande massa dos fiéis ao redor do mundo – donde o uso da palavra “universal”. É o Magistério Ordinário e Universal (MOU) que é infalível. Não se trata de algo diferente do Magistério ordinário, trata-se do Magistério ordinário quando seu ensinamento sobre algum ponto se tornou universal.

 

 

C. Prova da Infalibilidade do MOU

 

 

1. Fonte da Argumentação

Certo, fiz uma declaração forte aqui, chegou então a hora de ver se sou capaz de justificar o que digo pela voz da autoridade católica.

Existem muitas grandes obras que tratam dos diferentes modos em que a Igreja ensina os fiéis e os diferentes modos em que seu ensinamento os obriga, mas o principal guia que quero usar nessa questão é um que poucos de vocês vão ter ouvido falar, embora este tenha a mais alta autoridade. É o chamado De Valore Notarum Theologicarum – Sobre o Significado das Qualificações Teológicas – do Padre Sixtus Cartechini. O que faz esta obra especial é o fato dela ter sido escrita para o uso das Congregações Romanas na avaliação da ortodoxia ou heterodoxia de diferentes doutrinas. Ela foi publicada na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, 1951. Ela se baseia na doutrina unânime dos grandes teólogos e dos próprios papas sobre esses tópicos, e imediatamente se tornou uma obra de referência e permaneceu assim até o momento em que João XXIII decidiu que a era de condenar falsas doutrinas tinha chegado ao fim.

Eu me apoiarei pesadamente sobre a obra do Padre Cartechini, pois o que ele diz é o ensinamento padrão. Qualquer um que duvide de um ponto do que ele diz pode conferir a questão em uma infinidade de outras fontes.

 

 

2. Modos de exercício do MOU

Os primeiros três capítulos da obra de Padre Cartechini são sobre os dogmas definidos – Magistério extraordinário. O quarto capítulo se intitula O que é o Magistério Ordinário e como dogmas pode ser comprovados por meio dele, ou sobre a fé divina e católica fundada no Magistério Ordinário. O título já é eloquente – ele nos diz que dogmas que requerem o mais alto grau de assentimento podem ser comprovados a partir do Magistério Ordinário assim como pelo Extraordinário.

a. Primeiro, diz ele, o Magistério ordinário é exercido por expressa doutrina comunicada pelo papa ou pelos bispos aos fiéis pelo mundo todo sem o uso de definições formais. E então [para comprovar sua afirmação] ele apresenta uma lista de doutrinas sobre fé e moral infalivelmente ensinadas pelo magistério ordinário como divinamente reveladas. Muitas delas são simplesmente propostas em encíclicas papais.

b. Num Segundo modo, ele afirma, o Magistério Ordinário é exercido pelo ensinamento implícito, contido na vida ou prática da Igreja. Aqui ele assinala que a Igreja segue o exemplo do próprio Cristo que também ensinava certas coisas por seus atos, como por exemplo, o dever de honrar sua Santa Mãe Maria. E quanto a isso ele trata especialmente do colossal status doutrinal da liturgia. “A liturgia não cria dogmas, mas exprime dogmas, pois em sua maneira de louvar a Deus, ou suplicar a Ele, a Igreja exprime o que, o modo e de acordo com quais conceitos Deus quer ser publicamente cultuado… [numa outra tradução: o que é o culto público, como ele deve ser e sobre que termos deve ser realizado. NdT.] [logo] a Igreja não pode permitir fossem ditas em seu nome na liturgia coisas contrárias ao que ela mesma sustenta ou crê.” (p.37)

Cartechini menciona também as leis da Igreja como fonte de ensinamento infalível do magistério ordinário e universal manifestado na vida e prática da Igreja “… nem um concílio geral, nem um papa pode estabelecer leis que contenham pecado… e nada poderia ser incluso no Código de Direito Canônico que de algum modo se opusesse às regras da fé ou à santidade evangélica.

c. Finalmente, há o terceiro modo em que a Igreja exerce seu magistério ordinário infalível: pela aprovação tácita que a Igreja concede ao ensinamento dos Santos Padres, Doutores e Teólogos. Se uma doutrina é difundida pelo mundo católico sem objeção, isto significa que a Igreja tacitamente aprova essa doutrina. De outro modo, toda Igreja poderia e inevitavelmente iria errar em matéria de fé.

Se você está acostumado com a noção de que o ensinamento da Igreja somente é plenamente certo e obrigatório quando ele toma a forma de definição ex cathedra, você já deve ter percebido que você foi enganado. Penso ter mostrado que a questão tem mérito. Deus confiou a sua Igreja mais garantias do que muitos católicos se dão conta. Mas a dimensão da fraude teológica da qual alguns de vocês podem ter sido vítimas não para por aí.

 

 

D. O Magistério meramente Autêntico – não infalível, também é obrigatório.

 

Até o momento conversamos sobre o ensinamento estritamente infalível da Igreja comunicado seja pelo Magistério extraordinário, seja pelo Magistério ordinário e universal. Mas também existe o ensinamento da Igreja que está logo ao lado da infalibilidade em sentido estrito, mas que é estrita e gravemente obrigatório para todo católico.

Aqui nos referimos, por exemplo, ao cerne dos conteúdos doutrinas das encíclicas e decretos das Congregações Romanas.

Sobre as encíclicas, o Papa Pio XII escreveu o seguinte na Humani Generis:

Nem se deve pensar que os ensinamentos das Encíclicas não exijam assentimento, apoiado sob o pretexto de que os Pontífices não exercem nelas a suprema autoridade de seu Magistério. Tais ensinamentos fazem parte do magistério ordinário, para o qual também valem as palavras: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10,16)  Além do que, a maior parte do que vem proposto e estabelecido nas Encíclicas pertence já, por outras razões, à doutrina católica. Mas se os soberanos pontífices chegam a pronunciar um juízo expresso, nos seus documentos oficiais, sobre uma questão previamente sujeita a disputa, é claro para todos que, de acordo com a mente e a intenção do mesmo pontífice, essa questão não pode mais ser considerada como de livre debate entre os teólogos. (Dz 2313)

Essa citação é bastante clara. O ensinamento das encíclicas é obrigatório, mesmo se ele não pertencesse previamente ao corpo do ensinamento da Igreja. E o dever de crer nele não deriva do dever de fé. Procede do dever de obediência, do mesmo modo que o dever da criança de acreditar nos seus pais.

Pra citar um exemplo, o Canon George Smith novamente, escrevendo um artigo nos anos 40 para a Clergy Review expressamente trata do que os católicos devem crer.

“… que muito do ensinamento autoritativo da Igreja, quer na forma de encíclicas papais, decisões, condenações, respostas das Congregações Romanas – tais como o Santo Ofício – ou da Comissão Bíblica, não é exercício do Magistério infalível. E aqui mais uma vez nosso cuidadoso fiel levanta a questão “Devo crer nisso?” A resposta está implícita nos princípios já estabelecidos. Vimos que a fonte da obrigação de crer não é a infalibilidade da Igreja, mas a missão divina de ensinar. Portanto, quer seu ensinamento seja protegido pela infalibilidade ou não, a Igreja sempre é a mestra divinamente designada e a guardiã da verdade revelada, e consequentemente a suprema autoridade da Igreja, mesmo quando não intervém para tomar uma decisão definitiva e infalível em matérias de fé e moral, tem o direito, em virtude de sua missão divina, de exigir o assentimento obediente dos fiéis. Na ausência de infalibilidade, o assentimento dado não pode ser aquele de fé, quer seja católica ou eclesiástica; ele será um assentimento de uma ordem inferior, proporcional ao seu fundamento ou motivo. Mas seja qual for o nome que lhe seja dado — por ora o chamaremos de crença — ele é obrigatório; obrigatório não porque o ensinamento é infalível – ele não o é – mas porque ele é o ensinamento da Igreja divinamente designada. É um dever da Igreja, como Franzelin assinalou, não somente ensinar a doutrina revelada, mas também protegê-la e por isso a Santa Sé “pode prescrever para serem seguidas ou prescrever para serem evitadas opiniões teológicas ou opiniões conectadas com a teologia, não somente quando tem intenção de decidir infalivelmente a verdade, por algum pronunciamento [solene, ndT], mas também – mesmo sem essa intenção ‘definitória’ – meramente na intenção de guardar a segurança da Doutrina católica. Se é dever da Igreja, mesmo sem empregar sua infalibilidade, ‘prescrever e proscrever’ doutrinas com esse fim, então é evidente que também é dever dos fiéis aceitá-las ou rejeitá-las da mesma forma.

Nem se cumpre essa obrigação de submissão às declarações não-infalíveis da autoridade (do magistério, ndT.) pelo mero silentium obsequiosum. A segurança da doutrina católica, que é o propósito dessas declarações, não seria salvaguardada se os fiéis fossem livres para recusar seu assentimento. Não é suficiente que eles ouvissem em silêncio respeitoso, abstendo-se de oposição aberta. Os fiéis estão obrigados em consciência a se submeter a elas (Carta de Pio IX ao Arcebispo de Munique, 1861; cf. Denzinger, 1684), e submissão consciente a um decreto doutrinal não significa simplesmente abster-se de rejeitá-lo publicamente; Significa a submissão do próprio juízo ao mais competente juízo (aquele) da autoridade.

Mas, como já ressaltamos, ad impossibile nemo tenetur, e sem um motivo intelectual de algum tipo nenhum assentimento intelectual, ainda que obrigatório, é possível. Sob qual base intelectual, portanto, os fieis apoiam o assentimento ao que estão obrigados a prestar às decisões não infalíveis da autoridade? No que o Cardeal Franzelin (De Divina Scriptura et Traditione, 1870, p.116) de uma forma incômoda, porém precisa, descreve como auctoritas universais providentiae ecclesiasticae. Os fiéis devidamente consideram que, mesmo onde não há o exercício do Magistério infalível, a Providência Divina tem um cuidado especial com a Igreja de Cristo; e que portanto o Soberano pontífice em vista do seu ofício sagrado é dotado por Deus com as graças necessárias para o devido cumprimento desse ofício; que portanto suas decisões doutrinais, mesmo quando não asseguradas pela infalibilidade, gozam da mais alta competência; que em grau proporcionado isto é também verdadeiro quanto às Congregações Romanas e às Comissões Bíblicas, compostas por homens de grande saber e experiência, que estão completamente atentos às necessidades e tendencias doutrinais atuais, e que, em vista do cuidado e da atenção com as quais eles levam adiante seus deveres a eles atribuídos pelo Soberano Pontífice, inspiram total confiança na sabedoria e prudência de suas decisões. Baseando-se nessas considerações de ordem religiosa, o assentimento em questão é chamado ‘assentimento religioso’ “.

 

(Possibilidade de erro. O erro não poderia ser uma heresia. A opinião de que uma encíclica poderia possivelmente conter uma afirmação imprecisa – porque ela não seria em si mesma infalível – é sustentada por alguns poucos, mas essa opinião de modo algum sugere que uma encíclica possa ensinar uma doutrina previamente condenada, ou colocar as almas fora do caminho reto. E de modo algum ainda sugere que tais doutrinas errôneas numa nas encíclicas pudessem tornar-se tão habitual a tal ponto de que os Católicos tivessem que lê-las com um manual de teologia aberto em seu colo pra ver se por acaso o ensinamento ali era ortodoxo…)

Citei o Canonista Smith pela comodidade dele escrever em Inglês. Se vocês leem Latim, remeto-os especialmente nesse ponto a Cartechini e o De Divine Scriptura e Traditione do Cardeal Franzelin que é considerada a análise teológica mais detalhada e respeitada no assunto.

Ele afirma que…

E, de fato, a obrigação de assentimento aos decretos, ainda que [aqueles] das Congregações Romanas, foi frequentemente reiterada pelos papas. Por exemplo, sob o Pontificado de São Pio X foi oficialmente estabelecido que uma falha em submissão ao um decreto da Comissão Bíblica implicava em grave culpa de desobediência em respeito à sua autoridade e de temeridade em respeito à sã doutrina (Dz 2113). Carterchini nos diz que os decretos doutrinais das Congregações Romanas, quando promulgadas sob encargo papal constituem um preceito doutrinal obrigatório (p. 117), mas mesmo quando eles não são especificamente promulgados por encargo Papa, mas somente pela autoridade geral já delegada às Congregações, eles ainda requerem obediência sob pena de pecado grave (118). E o Papa Pio IX decidiu pela Tuas Libenter (1863 carta ao Arcebispo de Munique) que de modo algum era suficiente aos autores e especialistas católicos aceitar os dogmas da Igreja “mas eles devem também se submeter às decisões – disse ele – pertinentes a doutrina que foram estabelecidas pelas congregações pontifícias, e àqueles pontos de doutrina que são sustentando pelo consentimento comum e constante dos católicos como sendo verdades teológicas tão verdadeiras que mesmo se as opiniões contrárias a elas não possam ser chamadas heréticas, elas, por certo, merecem alguma outra teológica censura.” (Dz 1684)

 

 

E. Recapitulando

 

Então, vamos recapitular um pouco. Mostrei que a verdadeira infalibilidade doutrinal se extenue bem além dos limites das definições solenes. Espero ter sublinhado os modos como o Magistério Ordinário pode ensinar infalivelmente, tais como por leis, liturgia e pelo ensinamento comum dos teólogos. Mostrei ainda que nosso dever de submissão ao ensinamento das autoridades Eclesiásticas se extende ainda além dos limites da infalibilidade do Magistério Ordinário.

 

 

F. Confiança na Igreja, obrigatória mas rara.

 

Eu espero que acima de tudo eu tenha reanimado em vocês uma atitude que é rara nos nosso dias. Chama-se confiança na Igreja. Penso ter dito o suficiente para mostrar que nossa mãe a Santa Igreja Católica é realmente “o pilar e o alicerce da verdade” e verdadeiramente, como o profeta Isaías anteviu “35:8. Haverá ali um caminho e uma vereda, que será chamado caminho santo; o impuro não passará por ele, e será para vós um caminho reto, em que mesmo os tolos não erraram se se mantiverem nele.”

É algo que me move do fundo da alma espalhar confiança na Igreja. Nós mortais somos tão escassos em confiança onde ela é merecida – tão cheios de auto confiança – quando ela raramente vale a pena. Nós agimos como se Cristo nunca houvesse feito Suas promessas. Nossa vida espiritual não progride, porque não confiamos em Deus o suficiente. E nossa catolicidade é fraca e pálida, deixando-nos vulneráveis à confusão na crise; ao comprometimento e distorção da sã doutrina, porque não confiamos na Igreja de Deus do modo como Deus quer que ela seja objeto da nossa confiança.

Eis o que diz Dom Guéranger:

(Guéranger : Le Sens Chrétien de l’Histoire [O Sentido Cristo da História], Paris, 1945, p. 21-22)

Mas o que torna sempre mais firme e mais serena a reflexão do historiador cristão é a  certeza que lhe dá a Igreja que marcha diante dele como uma coluna luminosa e alumia  divinamente todo os seus juízos. Ele sabe que vínculo estreito une a Igreja ao Homem-Deus, como ela é assegurada por sua promessa contra todo erro no ensinamento e na direção geral da sociedade cristã, como o Espírito Santo a anima e conduz; é, pois, nela que ele buscará o critério dos seus juízos. …ele sabe onde se manifesta a direção, o espírito da Igreja, seu instinto divino. Recebe-os, aceita-os, confessa-os corajosamente; aplica-os em seu trabalho de historiador. Igualmente, nunca  trai, nunca sacrifica; diz que é bom o que a Igreja julga bom, mau o que a Igreja julga mau. Que lhe importam os sarcasmos, as chacotas dos covardes medíocres? Ele sabe que está com a verdade por que está com a Igreja e que a Igreja está com Cristo.

 

 

IV. Demonstração da Premissa Menor.

 

 

A. Não se pode confiar na Igreja Conciliar.

 

Mas claro, vocês não podem ter essa atitude com a Igreja Conciliar, podem? Se vocês conhecem e acreditam na imutável Fé Católica, vocês não podem acreditar em tudo que a religião Conciliar ensina nos decretos do Vaticano II (V2), nas suas encíclicas, no ensinamento comum dos seus bispos, nos seus textos litúrgicos oficialmente usados e aprovados, nas suas leis e normas disciplinares.

Muito menos poderíamos ter a atitude de Dom Gueranger para com a igreja que emergiu do V2, e segurar sua mão como uma criança, confiando em cada palavra dela, admirando-a, e ávidos para aprender dela em todo tempo – confiando nela.

Eu digo que não se pode. E chegou o tempo para demonstrar e provar essa afirmação. Gastei muito tempo na base doutrinal para assegurar-me que nosso critérios de julgamento fossem corretos. Assim espero agora ser bem mais breve.

 

 

B. Provas da Premissa Menor

 

Devo mostrar que a Igreja que emergiu do V2 claramente não goza das garantias divinas no que diz respeito ao seu Magistério Ordinário e atos associados que a Igreja Católica necessariamente e inalteravelmente possui. Poder-se-ia passar anos nos exemplos disponíveis – devo escolher alguns poucos que serão suficientes.

 

 

1. A Liturgia da Igreja Nova

Como meu primeiro exemplo, escolho a liturgia da Igreja Conciliar. Isso porque a liturgia é algo crucial.

 

a. A Liturgia Católica é protegida pelo Espírito Santo para não ser nem heterodoxa nem nociva.

Na Sua Quas Primas, Pio XI fez uma memorável declaração. Ele disse que “o povo é instruído nas verdades de fé… muito mais efetivamente pela celebração anual dos nossos sagrados mistérios do que por qualquer outro pronunciamento oficial do ensinamento da Igreja.” Em outras palavras, quando se trata de comunicar à fé, no nível prático, a liturgia é mais importante e influente que qualquer outro meio pelo qual a Igreja comunique o seu pensamento. E sabemos por experiência que isso é verdade. Basta pensar um pouco. Não foi o Vaticano II que arruinou [pouco a pouco] a fé nas massas católicas, porque elas nunca leram seus documentos. Foi a Missa Nova que realmente o fez. Correto?

Nós mencionamos que a liturgia é garantida pelo infalível Magistério Ordinário.

Cartechini disse: “a Igreja não pode permitir que coisas sejam ditas na liturgia em seu nome que são contrárias ao que ela mesma sustenta e crê.” (p. 37)

O papa Pio VI condenou o sínodo Jansenista de Pistola por sugerir que a “a ordem litúrgica existente [em uso] recebida e aprovada pela Igreja poderia ser em alguma parte devida a algum tipo de esquecimento dos princípios que deviam guiá-la” – o papa ensinou que esta ideia era impossível porque “a Igreja, guiada pelo Espírito de Deus, não pode estabelecer uma disciplina …que seja perigosa ou nociva”. Dz 1533 e 1578.

 

 

b. A missa nova é a ordem litúrgica vigente na Igreja Conciliar

Pode-se ver que essas citações – e há várias outras disponíveis – excluem de vez as mais comuns tentativas de fuga. Não se pode dizer que a Missa Nova não é completamente obrigatória ou não se aplica para a Igreja toda. Se a Igreja Conciliar é a Igreja Católica a missa nova é indubitavelmente a maior parte da “ordem litúrgica existente recebida e aprovada pela Igreja” e, portanto, protegida pelo Espírito Santo para não ser nem heterodoxa nem nociva.

 

 

c. Erros da Nova Ordem Litúrgica

Estritamente falando, não se pode nem mesmo tomar a saída popular – de Michael Davies e outros seguidores dos Indultos para Missa Antiga – de que o que conta é a Missa em Latim. Porque as autoridades da Igreja Conciliar conscientemente aprovaram os erros de tradução no vernáculo – mais notavelmente a tradução errônea encontrada em todas linguagens do mundo onde as palavras “derramado por vós e por muitos” na consagração do Cálice são traduzidas como “por vós e por todos”. Essa tradução herética é agora parte da ordem litúrgica existente recebida e aprovada pela Igreja – não é mesmo? A única questão é por qual Igreja?

Mas suponhamos que tomássemos apenas a versão latina.  Vou tomar apenas um exemplo. Ele aparece na oração pelos Judeus da Sexta Feira Santa quando os ministros do Novus Ordo rezam não pela conversão dos Judeus, mas, ao contrário, para que eles continuem  ou progridam na fidelidade à aliança divina. “in sui foederis fidelitate  proficere”. Isso só pode significar que os Judeus são no momento presente fiéis a aliança divina. Mas é claro que eles abandonaram completamente a antiga aliança por sua recusa em aceitar o Messias, por clamar “Não temos outro Rei além de César… Não teremos esse homem reinando sobre nós.” Consequentemente a Antiga Aliança foi ab-rogada e substituída pela nova e eterna aliança entre Deus e Sua Igreja, com quem os pérfidos Judeus não tem qualquer conexão. Aqui temos uma clara heresia ensinada pela liturgia Conciliar, de fato uma promoção anual de Judaísmo.

Além disso, levanto rapidamente alguns pontos sobre a Liturgia Conciliar, todos eles ofensivos a Doutrina Católica e nocivo às almas:

  • A forma traduzida da consagração [do Cálice] altera as próprias palavras de Cristo e torna inválida de acordo com São Tomás, com as rubricas, com o Concílio de Florença (Dz 715) e com os Padres da Igreja.
  • Ausência de um verdadeiro ofertório – essencial – substituído por uma ação de Graças Judaica antes das refeições.
  • Consagração que é mandada ler como narrativa e não in persona Christi.
  • A aprovação dada, pelo menos, para “Missa” voltada para o povo, comunhão na mão, ministros extraordinários, para a supressão de tudo que inspira reverência – mudanças calculadas para destruir a fé na presença real, na natureza sacrificar da Missa, na necessidade de um sacerdócio sacrificial ordenado.
  • A total ausência no novo rito e no novo catecismo da palavra ou doutrina de que a Missa é propiciatória.
  • Chamo atenção para o muito lúcido e valioso livreto do Rev. Padre Cekada entitulado Os problemas com as orações da Missa Moderna. É uma análise do próprios da nova missa e como eles foram criados a partir dos próprios tradicionais. Ele prova para além de qualquer disputa que os próprios da missa nova foram estabelecidos estritamente para suprimir e substituir qualquer menção a milagres, ira divina, perigo de perda da alma, tentações, concupiscência, culpa, afastamento do mundo, existência de inimigos da Santa Igreja ou das nossas almas e muito mais. Tudo isso foi aniquilado.

Eu recordei [aqui] que a Igreja não pode levar as almas ao erro ou ao perigo através de uma sua liturgia aprovada.

Nas palavras de Santo Agostinho: “A Igreja de Deus, cercada de tanta palha e cizânia, tolera muitas coisas, mas ela nem aprova nem faz o que é contrário a fé e a virtude e nem pode ficar em silêncio diante de tais coisas.”

 

A indefensável suposta missa nova, tão derrogatória da honra divina, tão nociva às almas e tão corrosiva da sã doutrina, é portanto meu primeiro exemplo claro de que a Igreja Conciliar não pode ser a Igreja Católica.

 

 

2. Novo Código de Direito Canônico.

Meu segundo exemplo está relacionado com as leis da Igreja. Lembram-se de Cartechini sumarizando o ensinamento unânime dos teólogos?

“Nem concílios gerais, Nemo o papa podem estabelecer leis que incluem pecado… Nada pode ser encontrado no Código de Direito Canônico que é de algum modo oposto às leis ou à santidade evangélica.”

Agora se nós consultamos as leis da Igreja Conciliar encontramos várias que contêm pecado, que são opostas de várias formas às regras da fé e que claramente pisoteiam o próprio conceito de santidade evangélica.

Aqui alguns exemplos que me ocorrem.

a. Autorização para administração dos sacramentos para não-Católicos. [Monstrando o planfleto] No antigo Código de Direito Canônico – Canon 731 “É proibido administrar os sacramentos da Igreja para hereges e cismáticos, ainda que errem em boa fé e os peçam, a menos que eles primeiro tenham abjurado de seus erros e tenham se reconciliado  com a Igreja.”  No novo código, Canon 844/3+4 , isso é permitido para todos os hereges orientais e cismáticos e também para muitos outros não-católicos.

b. A autorização para culto público ativo com não-católicos e a participação em seus ritos. O antigo Código, Canon 1258 – não vou nem me dar ao trabalho de ler porque está até no catecismo. Agora temos ainda o V2 com seu decreto Unitatis Redintegratio dizendo que agora pode ser uma boa ideia violar o primeiro mandamento dessa forma (Conf. 844/2).

Por 2000 anos a Igreja ensinou enfaticamente que ambos atos eram pecado mortal. E em ambos os casos sua doutrina é tão conforme a santidade evangélica quanto se pode desejar: ‘Não se dá as coisas santas aos cães, não se lança pérolas aos porcos, se eles não ouvirem a Igreja, sejam para vós como pagãos e publicanos’ [Mt. 6,6 e 18,17. NdT]

c. A definição de matrimônio, no Canon 1055, que segue o decreto do V2 sobre a Igreja no mundo moderno, ao igualar os vários fins do matrimônio, está em claro conflito com o ensinamento tradicional da Igreja sumarizado no código de 1917 que dizia sucintamente que “o fim primário do matrimônio é a procriação e a educação dos filhos” (Canon 1013). De fato, o novo código lista o bem dos esposos primeiro que o fim primário e somente menciona mais na frente a procriação e a educação dos filhos. Foi justamente esse erro combatido durante o V2 pelo Cardeal Ottaviani e pelo Cardeal Browne superior-geral dos Dominicanos.

d. A supressão no novo código da lei divina promulgada por São Paulo conforme a qual as mulheres devem ter a cabeça coberta e os homens a cabeça descoberta na Igreja. Ou será que São Paulo precisa de umas lições de santidade evangélica daqueles que redigiram o código de 1983?

 

Vimos assim que a Igreja Conciliar por suas leis autoriza e encoraja o pecado mortal e a heresia de que a Igreja é algo diferente, maior que (mais universal) a Igreja Católica. A Igreja Católica não poderia fazer isso.

 

 

3. O Concílio Vaticano II

Agora olhemos o Vaticano II em si mesmo. Tradicionalistas enfatizaram que o concílio não se propôs a exercer o magistério extraordinário, e concluem portanto que é aceitável supor que ele errou. Opa, espere um momento. Quando os decretos de um concílio geral não estão fazendo definições dogmáticas solene, ainda assim eles permanecem como um dos momentos mais altos do exercício do Magistério Ordinário e Universal. Dizer que não temos que automaticamente aceitar com fé divina tudo que eles dizem não equivale a sugerir que eles podem ensinar erros contra a doutrina Católica que foram previamente condenados infalivelmente. No mínimo tais ensinamentos conciliares são infalivelmente seguros e obrigatórios em consciência.

Ainda assim encontramos nos textos do V2 numerosas heresias e falsas doutrinas.

 

 

a. Dignitatis Humanae

Não tenho o tempo para listar muitas, mas devemos mencionar a liberdade religiosa para a qual foi dedicada (no concílio) toda uma declaração a qual contradiz palavra por palavra o ensinamento da Quanta Cura de Pio IX que é tida como um típico exemplo de definição solene do magistério infalível extraordinário.

Não poderia mencionar esse tópico sem aludir aos ingênuos esforços do Dr. Brian Harrison em mostrara que a doutrina do V2 de fato é compatível com o ensinamento infalível que ela aparenta contradizer. Eu diria que até onde eu sei o Dr. Harrison é o primeiro homem na história do Cristianismo que julgou necessário escrever um enorme livro acadêmico para demonstrar que apesar das reconhecidas aparências, o ensinamento de um dado concílio pode, na verdade – com grande esforço – ser interpretado de um modo que pode ser justo e compatível com a Doutrina Católica!

Seria rude não admirar os esforços do Dr. Harrison. Eles parecem para mim de um verdadeiro heroísmo. Esses esforços partem do nítido [e correto] princípio – que ele conhece tão bem quanto eu – de que sem essa reconciliação a Igreja Conciliar entraria em colapso e reduzida a ruínas.

Mas, foi uma tarefa desesperada. Só o fato de tal trabalho ter sido considerado necessário já demonstra que o V2 não foi um concílio geral da Igreja Católica. Harrison estica os antigos ensinamentos pré vaticano 2 o máximo que ele pode na direção do liberalismo; e na outra ponta ele estica a doutrina do Vaticano 2 ao máximo na direção do catolicismo; e, então, convence a si mesmo que ele conseguiu fazer os dois se encontrarem. De fato ele não conseguiu.

Ele não conseguiu porque em ambos os casos sua interpretação é única. E em ambos casos, todo mundo entendeu e supôs o contrário dele.

Até o V2, por exemplo, os papas insistiram enfaticamente no dever das nações de professar a verdadeira fé e eles vivamente censuraram qualquer nação que outrora católica não o tenha feito.

Desde o V2, porém, os novos «papas» ao redor do mundo insistiram que todas nações católicas removessem das suas constituições qualquer sinal de privilégio para a Fé verdadeira. E eles privaram a liturgia de qualquer alusão (e havia muitas) ao dogma de que Cristo deve reinar não somente sobre as almas dos indivíduos mas também sobre os estados e instituições.

Nós temos mesmo que acreditar que tudo isso se deve à simples conveniência política? Ou que as circunstâncias políticas mudaram tão radicalmente entre 1958 e 1963 que um dever grave tornou-se do dia pra noite um pecado grave?

Realmente temos que acreditar que Pio IX entendeu errado o verdadeiro significado da Quanta Cura e agora precisamos do Dr. Harrison pra nos explicar melhor? E que João Paulo II entendeu errado o significado do Vaticano II e precisa que o Dr. Harrison o explique? E se João Paulo II aceitou a versão da liberdade religiosa do Dr. Harrison ao invés das heresias de John Courtney Murray, quando é que ele vai finalmente nos dar algum sinal disso?

 

 

b. Nulidades Matrimôniais pós Vaticano II

Um outro erro nítido na lei da Igreja Conciliar encontra-se no seu regime de nulidades matrimoniais. Nos EUA, capital mundial das nulidades, logicamente, quase metade dos casamentos católicos terminam, por decreto da Igreja Conciliar, declarados como nulos desde o início. Em outras palavras, os casais não eram realmente casados.  Viviam em fornicação. Seus filhos são bastardos. Agora, ou a igreja conciliar está promovendo adultérios por atacado por anular casamentos sem razão suficiente, separando o que Deus uniu. Ou então a igreja conciliar não sabe nem mais como casar validamente as pessoas (pra início de conversa) e, por conseguinte, está promovendo adultérios por atacado ao dizer para as pessoas que elas estão casadas quando de fato elas não estão. De qualquer forma, a mensagem é alta e em bom som. Aqueles que aprenderam através das leis e práticas da igreja conciliar estão concluindo que o matrimônio sacramental não é um estado permanente que dura até a morte. E isso é uma heresia.

 

 

c. Omissão e silêncio em relação ao Inferno.

Um último exemplo. Nós aprendemos que a Igreja ensina através de seu magistério infalível, não só pelo que ela diz, mas também pelo que ela não diz. Quem cala consente – isso é verdadeiro quando uma igreja por 40 anos falha em desaprovar um erro ou mal notório, esparso e até universal. Agora, entre muitos outros desses erros, olhemos para a importante verdade da eterna condenação. Por um simples pecado mortal nós perdemos a vida divina e estamos necessariamente destinado ao Inferno a menos que nos arrependamos. Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou essa verdade umas 40 vezes nos Evangelhos. Poucas verdades são tão centrais no Catolicismo. Depois de dar Glória a Deus  a principal tarefa da Igreja é salvar as almas. Salvá-las de quê? Sem o perigo das chamas do Inferno a redenção não significa nada – o Cristianismo não faz nenhum sentido.

Agora olhemos para o silêncio ensurdecedor da Igreja Conciliar a respeito do Inferno. Seu silêncio sobre o pecado mortal. Pergunte a um padre conciliar quando foi a sua última pregação sobre o Inferno. Pergunte a João Paulo II porque ele dedica suas encíclicas, centenas de textos, ao propósito de criar uma noção de que a encarnação cria um vínculo permanente entre Cristo e cada homem, convite à noção de salvação universal, e, por outro lado, nunca alerta seu rebanho do perigo de condenação. O fato é claro. Pelo seu silêncio a Igreja Conciliar nega o Inferno, ou pelo menos que haja um perigo real ameaçando seus membros.

 

 

V. Conclusão

 

Reverendos Padres, senhroras e senhores, se me acompanharam até aqui, vocês viram que a Igreja Conciliar ensina falsas doutrinas aos seus fiéis de maneiras que a Igreja Católica por garantia divina é incapaz de ensinar. A Igreja Conciliar portanto não é a Igreja Católica.

 

 

A. A conclusão independe de questões de pertinácia ou qualificações teológicas.

 

Por favor, lembrem-se que essa premissa de modo algum depende de pertinácia – se aqueles que ensinam erros percebem ou não que esses erros são contrários à Doutrina Católica. Cristo prometeu proteger Sua Igreja para que ela não levasse seus fiéis ao erro ou ao perigo para suas almas, seja deliberadamente seja por acidente. Sendo assim, meu mérito aqui não depende de forma alguma de distinções precisas que algumas vezes se aplicam para a exata qualificação teológica de uma certa doutrina. Parte do que a Igreja ensina infalivelmente deve ser crido com fé eclesiástica e não divina. A negação do que é de fé eclesiástica é pecado grave e acarreta excomunhão, porém não necessariamente está qualificado como heresia. Esse tipo de distinção não tem lugar aqui. A Igreja não pode ensinar para as almas um erro, oposto de alguma forma ao ensinamento que ela mesma já deu – independente da exata qualificação teológica relacionada a doutrina em questão. A Igreja é “o pilar e o firmamento da verdade” (1 Tim 3,15 Douay-Rheims nota de rodapé – 3:15. Mas se me alongo, é para que saibais como vos portar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, o pilar e firmamento da verdade. O pilar e firmamento da verdade… Portanto a Igreja do Deus vivo não pode nunca apoiar o erro, nem introduzir corrupção, superstição, ou idolatria.)

A razão pela que a Igreja Conciliar não é a Igreja Católica é muito simples. Se você publicamente professa uma heresia, por esse mesmo fato, você deixa de ser católico. JP2 e seus bispos o fizeram. Mas isso vocês vão ouvir com o Sr. Lane.

 

 

B. Ainda sobre às disposições do católico em relação a Igreja.

 

Gostaria de encerrar retornando às disposições que os bons católicos devem ter para com a Igreja. Gostaria de citar algumas palavras do imortal livro do Padre Faber O Sangue Precioso.

Devemos ser fieis a Cristo até mesmo nos menores juízos que fazemos dela.

Devemos gostar dos seus modos, da mesma forma que obedecer seus preceitos e acreditar em suas doutrinas.

Devemos estimar o que a Igreja abençoa e tudo que ela admira.

Nossa atitude deve ser sempre aquela de submissão, nunca de crítica. Aquele que estiver desapontado com a Igreja de estar perdendo sua fé, mesmo que ele não perceba isso. O amor de um homem para com a Igreja é o maior teste do seu amor para com Deus. Ele sabe que a Igreja toda é guiada pelo Espírito Santo. A vida divina do Paráclito, Seus conselhos, Suas inspirações, Suas operações, Suas considerações, Sua atração estão por toda parte nela.

O dom da infalibilidade nada mais é que a concentração, o ponto mais alto, a exteriorização oficial e solene, da vida interna do Espírito Santo na Igreja. Enquanto pede, assim como a revelação, pela submissão absoluta da alma e do coração, todos os arranjos, modos e disposições da Igreja pedem por uma submissão geral, por docilidade e reverência, porque toda a Igreja é um santuário cheio da vida do Espírito Santo. —Fr. F. W. Faber Cong. Orat. D.D., Burns and Oates, 4th ed. pp. 187-9

 

 

C. Concluindo

 

O que estou dizendo é que nenhum Católico Tradicional pode encarar dessa forma João Paulo II e a religião da qual ele é cabeça. A razão disso está no fato atestado por um cardeal estrangeiro nos EUA pelo Congresso Eucarístico de 1969, na Filadélfia. Ele disse “Nos encontramos agora diante do maior confronto que a história human já presenciou… estamos diante do confronto entre a Igreja e a anti-Igreja, do Evangelho versus o anti-Evangelho. O confronto estava nos planos da providência divina.” O nome desse cardeal era Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia. É bom ver que posso concordar com ele em alguma coisa.

Encerro meu caso.

Por | 2018-06-07T20:55:22+00:00 07/06/2018|Sedevacante|0 Comentários

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